segunda-feira, 5 de maio de 2014

sem eira nem beira




O ano começou, já lá vão uns meses, e tive tempo para ver alguns filmes. O último foi o Tiny Furniture da Lena Dunham - para quem não conhece, a tipa das Girls. É basicamente o mesmo. Final da universidade, o já não ser (assim tão) jovem, mas estar longe de tomar decisões adultas - esse limbo de quem termina os estudos e é lançado aos leões. A personagem de Lena volta a casa da mãe, reencontra amigas do secundário, faz um mais-ou-menos amigo e arranja um trabalheco sem ir à procura dele - do qual não precisa assim tanto e pode eventualmente desistir. Ela deseja coisas grandiosas, ser tão bem sucedida quanto a mãe, mas só a vemos fazer uns vídeos para o youtube. É aquela vontade ociosa de exposição que a tecnologia nos impõe e que acaba em vazio. Há demasiadas opções virtuais para poucas oportunidades reais. Claro que os problemas dela são coisas de classe média alta. Deixar um trabalho porque lhe apeteceu passar-se, tem o valor que tem, dentro do contexto dela. Há quem não tenha essa opção. O resto é o resto. Não quero realmente falar sobre este filme. Preferia falar sobre outro, como A Grande Beleza, mas há filmes que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre. 


Nestes 4 meses fui a muitos lugares, não estando realmente em nenhum sítio. Voltei a Lisboa, deixei-a levar-me nos seus eléctricos cheios, de gente que não a conhece, Lisboa que é nossa e para eles se aperalta - e volto à linha do meu comboio e vou com as mesmas caras pelas mesmas paragens, de olhos fechados, as estações mudam e, durante viagem, o que há de firme passa e o que sempre se move permanece.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Another year


Este ano passou por mim como um trovão. Não tive realmente tempo ou coragem para ver muitos filmes. Menos ainda para escrever sobre eles. Mais tarde arrependi-me. Perdi o embalo. As coisas que tinha a dizer ficaram por aqui soltas, misturadas com outras, e esta plataforma parece às vezes já não me servir. Isto, claro, são desculpas. Vejo tanta gente escrever tão bem todos os dias e pergunto-me como conseguem. Como conseguem, com todas as ideias que têm somadas às ideias que os atacam e que não são deles e ainda àquelas onde não conseguem chegar. É preciso dedicação. E é preciso aceitar a solidão da palavra. Este ano dediquei-me a passar a palavra de outros. A minha não me dava sustento, e assim se foi arrastando para longe. Quando os outros arranjaram uma boca mais nova e mais barata que passasse a palavra deles, calaram-me. E então fiquei muda. Sem a deles nem a minha. Um Homem não é ninguém sem a sua palavra. Eu tinha os meus filmes. E eis que fui rever os que me ensinaram a ver, a pensar e a escrever. Foi em boa hora que pude ver na tela O Gosto do Saké, Tokyo Story e Primavera Tardia de Ozu, ou que tive em casa um projector onde vi filmes do John Ford e do Jarmusch, ou ainda a feira de natal do cinema ideal onde comprei filmes do Mike Leigh por tuta e meia. Foi também, longe ia o verão, que vi Aquele querido mês de Agosto e As praias de Agnès. E se há pessoa que me inspirou foi ela, que, sem vergonha e com toda a honestidade, diz que quando tinha uns 26 anos e começou a fazer filmes, tinha visto, por alto, cerca de 8. 26 anos tenho eu e pensava ser muito tarde para (re)aprender as palavras, juntá-las e dar-lhes voz. Talvez seja, talvez não. Não é ainda a hora de descobrir. Com o ano a chegar ao fim, fica o registo dos filmes estreados em sala de que mais gostei. Com evidente destaque para Like Someone in Love de Abbas Kiarostami, e Io e Te de Bernardo Bertolucci. A seguir, e sem nenhuma ordem que valha a pena destacar: Frances Ha de Noah Baumbach, La vie d’Adèle de Abdellatif Kechiche, Noutro País de Sang-soo Hong, De rouille et d’os de Jacques Audiard, La Vénus à la fourrure de Roman Polanski e The Bling Ring de Sofia Coppola. Ainda não vi O grande mestre do Wong Kar-wai, mas deixo-vos um excerto do Happy together que espero servir de inspiração ao ano que se avizinha. A todos os que ainda me lêem, e também aos outros, sejam felizes, à vossa maneira, juntos ou separados, se não aqui, no fim do mundo.


domingo, 27 de outubro de 2013

Les amants du Pont-Neuf



Dias depois de ver Mauvais Sang, tive a feliz surpresa de ver Les amants du Pont-Neuf na festa do cinema francês, com a minha querida amiga e companheira Rita, que chorou e se assoou todo o tempo. Eu não chorei. Talvez por ela ter chorado pelas duas, talvez por eu ter chorado mais que a conta no Like someone in love.
Eu fiquei boa parte do tempo a achar que o filme ia acabar a qualquer momento. Porque podia ter terminado muito antes e seria igualmente extraordinário. Mas Carax leva-o à exaustão, num tour de force de performances espantoso, sem o qual podia cair no abismo. Depois do absoluto realismo das primeiras cenas num abrigo para quem não o tem, alterna entre uma mise-en-scène sabiamente controlada, com cenas bastante longas, e uma explosão de cores, sons e movimentos de câmara arrojados e delirantes, num hino ao amor desmedido e louco.
Alex encontra Michèle a dormir nos seus aposentos. Ela aparece-lhe como uma dádiva, da qual ele decide fazer o sentido da sua vida. Passam a depender um do outro: ele ajuda-a a caminhar por Paris, servindo-lhe de bengala, ela oferece-lhe companhia à noite, ajudando-o a passar as suas insónias. O amor é assim uma necessidade, algo a que se agarram para sobreviver. A relação é tão degradada como a ponte em que vivem, uma fortaleza em colapso físico e existencial. São egoístas, obsessivos e maquiavélicos. Alex faz tudo para que Michèle não consiga contactar a sua antiga paixão, põe o dinheiro que roubaram a jeito para que ela o derrube sobre o rio - com medo de a perder se saírem daquela ponte - e pega fogo aos cartazes espalhados pela cidade, preferindo que ela cegue a que se seja operada, porque só em condições extremas o seu amor é válido.
Ele é prisioneiro da ponte, ela é uma turista à procura de um escape. Quando finalmente o encontra, não tem problemas em drogar Alex e partir, deixando-lhe uma nota bastante desagradável sobre o leito do seu amor. 
O tempo passa e Michèle vai ao encontro de Alex. Percebemos que está com o médico que a operou, mas não consegue fugir ao fascínio que Alex e a vida que tiveram juntos despertam nela. O perigo, a ansiedade, o amor sem regras, cego e desmesurado. Quando se encontram no natal não há possibilidade de ficarem juntos porque a ponte (como eles) não é a mesma, não é já deles, é agora firme e aberta ao mundo. Ao perceber que não pode ficar com Michèle, Alex atira-os ao rio porque é preferível uma morte à morte do amor. São salvos por um barco (homenagem a L’Atalante e espécie de pré-Titanic), desta vez uma superfície em movimento que os transporta para longe daquele lugar sem nada para lhes oferecer. Decidem partir juntos numa nova aventura, renunciando à vida “normal” que tinham conseguido para si mesmos. Serão sempre os marginalizados lovers on the run que se deixam conduzir por paixões obsessivas, tão prazerosas como sofridas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Frances Ha



Estes dias tenho-me lembrado muito da Frances. Fui dispensada das minhas funções e também me disseram que sou muito boa mas isso não me paga a renda. A Frances é o rosto da minha geração. Licenciada e disposta a seguir os seus sonhos, passa os dias adiando decisões inevitáveis e procrastinando no sofá em frente à tv ou ao computador. Muda de casa como quem muda de peúgas, mas essas ela nunca tira, porque a melhor amiga que a lembrava disso, a deixou por uma rua melhor. Então ela ficou perdida porque precisava de alguém que cuidasse dela, porque é uma criança grande numa das maiores cidades do mundo, ainda assim pequena para a grandeza das coisas a que se propõe. Frances está longe de se acomodar. Não pára de um lado para o outro, e ao mesmo tempo passa dias inteiros cheia de projectos que acaba por não concretizar. Ainda assim, tem uma energia estonteante que contagia tudo à sua volta e que se manifesta nos movimentos sem jeito e nas palavras atrapalhadas.
Esta cena (carregar na cena) simboliza o conto de fadas em que vive. Não é assim tão improvável uma situação destas existir e é bonito pensar que existe, algures, ou que existiu, um dia. Mas é apenas uma cena no todo do amor e a longo prazo é uma quimera. Frances acredita que pode perdurar e nós acreditamos com ela. No final, troca esse olhar cúmplice com a sua pessoa, Sophie, a melhor amiga que a deixou por uma rua melhor, e depois pelo homem com quem se casou. Ela decidiu crescer enquanto Frances dava ainda luta à idade adulta. Foi a Paris com dinheiro que não era seu e deixou-se dormir o dia todo. Não conseguiu traçar um plano sozinha e ficou à espera de uma chamada que chegou tarde demais. Foi a casa dos pais no Natal, enganando um pouco mais a idade. E quando finalmente viu a sua carreira de bailarina caída na sarjeta, fez o melhor que podia com aquilo que tinha. Aceitou o trabalho de secretária na companhia e levou ao palco a sua coreografia. Abdicou do sonho e entregou-se à vida. Quem não tem cão caça com gato. E deu-se bem, melhor que muitos de nós. Vale a pena tentar, pelo menos. Só temos que deixar a bagunça do amor e da vida de parte. Frances dança estes tempos modernos com uma leveza inspiradora. Obrigada a ela e a ela, Greta, e ao Noah. Amanhã vou à procura de um novo trabalho.

sábado, 19 de outubro de 2013

Io e Te



Na passada semana fui, sem grandes expectativas, ver o Io e Te. Tinha ficado com uma ideia um bocado chata depois de ver o trailer. Estupidez minha. Bertolucci pega nos dois jovens - um enterrado a fundo no desconforto da puberdade, outra a arrancar os últimos bocados de uma extravagante e decadente adolescência que se prolonga pela casa dos 20 - e encerra-os numa cave bafienta, recheada de antiguidades, cenário idílico como exercício de estilo de uma requintada decadência. Decadentes são também as suas vidas, uma física, outra moralmente. À medida que o espaço vai ganhando forma, eles também se vão erguendo. Porque às vezes é preciso cair no fundo para nos levantarmos. O miúdo não quer ser incomodado durante uma semana e trata de tudo para ficar sozinho e tranquilo, mas a meia-irmã entra-lhe por ali adentro e, dado o seu estado, ele não tem outro remédio que não aprender a cuidar e a estar com alguém. Com ela, experiencia o que é sentir-se ligado a outro ser humano. Olivia vem dar vida e explorar o potencial da cave, ajudando Lorenzo a sair do buraco em que se enclausurou para se sentir livre e seguro. O desafio é fazer essa sensação perdurar fora de grades. Ela foi ensiná-lo a crescer, mas fá-lo de forma bastante passiva. É o miúdo que trata dela e a ajuda, ao deparar com uma realidade completamente desconhecida. E nessa tenra idade sentimo-nos importantes quando somos úteis e fazemos coisas pelos outros. Lorenzo fez tudo o que podia pela irmã e a sua devoção foi retribuída com o amor que precisava para acalmar o seu espírito tumultuoso. Há uma aura constante de sensualidade a pairar no ar. Olivia é uma deusa rebelde, e a sua beleza - dissecada à lupa pelo rapaz - serve como objecto de idolatração. Ela não é um modelo a seguir, mas alguém com uma experiência que ele não tem, que lhe mostra que a vida são dois dias e que as crises existenciais têm de acabar num deles. A escolha é dele. E dela. Quando, inocentemente, Lorenzo lhe dá os cigarros com a droga lá dentro, Olivia deixa de poder encerrar ali os seus problemas. Leva-os consigo e terá ou não coragem para resistir à tentação da maçã proibida. A cena em que Tea Falco dança a Ragazzo Solo, Ragazza Sola do Bowie é a mais bela do filme. A letra é a narrativa. É nesse momento que a aura de sensualidade cai e dá lugar a um abraço fraterno. 




Eu chorei quando o filme acabou. Fui em crescendo com ele, largando as amarras e deixando as emoções eclodir pela sala escura. Eu lembrei-me que já fui os dois irmãos e senti uma certa nostalgia de um tempo cheio de agitações e incertezas, de amores e desencontros. Passados mais de 15 anos desde Stealing Beauty, Bertolucci não perdeu o tacto, mas eu perdi a idade da inocência e a bagagem é uma coisa pesada.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ainda Kiarostami. assim é o amor.




Decorrida uma semana, Like someone in love continua tão presente que não consigo ver outro filme. Também não consigo sair à rua e lidar com o sol a arder sem glória, amolecido pelo temporal que se colou à pele e a fez suar as vísceras. O sol veio dizer adeus e não gosto de despedidas.
Por falar nisso, esta semana vi o episódio final de Breaking Bad, que seria óptimo, se tivesse terminado mais cedo. Já para não mencionar o de Dexter, que foi assim a banhada total. Daí continuar a aplaudir Kiarostami, que não se lembrando de mais nada, parou o filme ali e pronto. Gosto de finais que deixem as coisas a arder, que não resolvam nada, que deixem a história/o mundo em aberto.
Também esta semana, uma amiga dizia-me que um filme vale somente pela história e que lhe cansam os críticos que “perdem tempo” a falar da mise-en-scène, dos planos e “do resto”. Pois eu podia ficar horas a falar de planos. É tão belo o filme contar histórias através deles, deixar-se guiar sem um fim. Foram os planos que me fizeram ficar embasbacada com Breaking Bad, porque aquilo é coisa de cinema e é preciso um gajo arriscar a sério para fazer uma série assim.
Kiarostami não interfere com a vida que lhe entra pela câmara. Não conta a história, deixa a história contar-se. Uma história universal que é dele e de cada um de nós. Já todos fomos Akiko, à procura de algo e a tentar esconder o algo que somos de outro. Ou o namorado ciumento e obsessivo que sabe estar a ser enganado. Ou mesmo a vizinha com quem noutra altura nos podíamos ter cruzado e agora é tarde. Só não fomos a avó, por falta de filhos com que nos preocupar, ou Takashi, por força da tenra idade e de dias por viver.
Na cena no carro entre Takashi e o namorado,  o mais velho parece conter em si todo o conhecimento. Mas nunca diz nada específico, apenas solta linhas condutoras. When you know you will be lied to, it’s better not to ask. Não foi por falta de aviso que o namorado se deixou ser aldrabado. Continuou ali, preso num cubículo com um estranho, a tentar ser bem educado, a explicar as razões pelas quais quer casar com Akiko, todas ao lado, e não sabemos se está apaixonado ou obcecado por ganhar a batalha do amor. Ele não quer deixar que ela Seja, quer moldá-la a seu gosto. Mas não quererá Takashi o mesmo?
Kiarostami não quer moldar nada. Deixa que uma transeunte, que passa duas vezes com crianças vestidas de bruxas, fique confusa com o carro que sai do estacionamento e se ponha a olhar em todas as direcções. Dá tempo a Takashi para descer as escadas do prédio, deixa-o adormecer durante o sinal vermelho e que o trânsito interfira quando vai buscar Akiko, tendo de fazer inúmeras manobras até conseguir chegar a ela.
Todos eles (e todos nós) trocam impressões e expressões de amor, como quem está apaixonado. assim é o amor, uma estupidez intermitente mas universal, já dizia o valter.

domingo, 29 de setembro de 2013

Like someone in love


When you know you will be lied to, it’s better not to ask.



Foram precisas três vezes para conseguir ver o novo filme do Kiarostami de uma ponta a outra, facto que não é inédito na minha relação com os seus filmes. A primeira vez que tentei foi especialmente dura, logo na cena inicial filmada sobre uma claustrofobia exasperante que luta por agarrar a rapariga. Os figurantes parece que vão ali ficar para sempre, e ela apenas sai para dentro de um táxi. É neste ambiente que somos apresentados a Akiko, antes mesmo de lhe conhecermos o rosto. Ao telefone, mente passiva e descaradamente ao namorado desconfiado. Queixa-se ao patrão que tem exame no dia seguinte, não podendo por isso trabalhar nessa noite, para além de ainda ter a avó à sua espera. Mas desde o início que a decisão está tomada, de outro modo não estaria ali e sim a estudar. Ter trabalho marcado para essa noite é a desculpa que dá a si mesma para não ter de se justificar perante a avó. Akiko está sempre impávida e nunca sabemos bem quais os seus verdadeiros sentimentos. Quando se exalta no bar, a câmara não a filma, voltando a ela quando já está serena. Quando, mais à frente, discute com o namorado à entrada da faculdade, mal a ouvimos. Ainda na cena inicial, tem o cuidado de pedir o batom à amiga, que coloca no fim de ouvir as comoventes mensagens que a avó lhe deixou durante todo o dia que passou à espera dela na estação de comboios, por entre as quais lhe diz: “She looks like you but she doesn’t”. Habituada a representar diferentes personas de noite, conforme o trabalho a obriga, Akiko não sabe em que persona se encaixar. Ver a avó é porventura voltar à pessoa que era há dois anos atrás, antes de entrar em Tóquio. Não sabemos bem por que está a estudar, pois parece pouco interessada, não respondendo correctamente a uma pergunta simples do exame. Não sabemos se gosta do namorado ou do que gosta nele, nem ela própria sabe. Anda ali à deriva, a tentar ser alguém. Alguém como a rapariga do quadro, a filha ou a mulher de Takashi.
Foi mais ou menos por esta altura que tive de parar. A capacidade que a avó tem de colocar doçura em todas as palavras, quando o que sente é desespero, a sua silhueta, ao longe, rodando a cabeça em todas as direcções à procura da neta, ainda com um fio de esperança, estilhaçou-me o coração.
Dias depois, reiniciei-o e consegui ir até ao vulto de Akiko reflectido no espelho do quarto de Takashi, um vulto esfumado como alguém que não conhecemos ou como uma aguarela que desaparece com a chuva. O desconforto de Takashi é estupidamente bem conseguido para um actor não-profissional. Ao contrário dela, ele não sabe como se comportar numa situação destas, ou sequer o que quer daquela miúda. Acaba por se sentir envergonhado por entrar para a contagem dos homens que a oprimem e a afastam da busca interior que deixou suspensa, não conseguindo encaixar em nenhum lugar. Assim sendo, o melhor que Takashi pode fazer é tomar conta dela e ajudá-la a descobrir-se. Ser a avó que ela rejeitou. Claro que as suas boas intenções caem por terra quando confrontadas com o namorado de Akiko, o único personagem que se comporta como os sentimentos ditam e que sabe o que quer, ainda que pelos motivos errados.
Nisto já eu ia na terceira tentativa, que foi definitiva e terminou abruptamente, com o micro-ondas a dar o sinal de alarme. Cheguei ao fim de coração acelerado e não consigo pensar num final melhor que aquele. E quem diz final, diz princípio e meio. Kiarostami é daqueles realizadores que não precisa de palavras para se expressar. Podia ver os seus personagens a passear de carro por uma qualquer cidade durante horas, observando no vidro o reflexo dos lugares por onde passavam, as nuvens no céu, os semáforos. Kiarostami não precisa de dizer nada porque está lá tudo. A personagem mais querida do filme é a avó e nem lhe conhecemos o rosto. É a que mais se esforça por conseguir entrar, com cuidado e delicadeza, a que fala sem obter resposta. Kiarostami não precisa de um rosto, quando tem uma voz. O contrário, claro, também se verifica. Akiko pouco se manifesta porque a sua expressão fala por si. O professor é ao mesmo tempo apaziguador e catalisador de revolta. Tentando proporcionar um equilíbrio ao jovem casal e a cada um individualmente, é sacrificado por se envolver num amor que não é seu, porque estava sozinho e queria companhia, porque se sentiu culpado, porque tentou ser peixe e carne.

Preciso de tempo extra para dedicar a Kiarostami. Ele faz-nos ver a vida quando não estamos preparados. É um dos meus realizadores vivos preferidos e não consigo falar sobre ele porque o amo. As coisas que amo, eu só olho e qualquer palavra não quer dizer nada. Não tinha em mente escrever e sinto-me até envergonhada por o ter feito, tão pequena sou perante ele e a vida. Mas é domingo à noite e estou sozinha em casa, como alguém que finge estar apaixonado pela chuva, quando a roupa não seca e as camisas brancas não nascem nos cabides.

sábado, 24 de agosto de 2013

the bling ring




foi preciso vir aí a sofia coppola para eu actualizar este inanimado blog. e se a desculpa do "não tenho tempo" não é mentira nenhuma, menos não é a de que a preguiça vai esticando e ganha assento oficial.
a sofia, essa, é que não se sentou à sombra da bananeira, e pegou na história mais oca possível e atirou à cara de quem quer ver que é capaz de fazer um filme tão belo quanto quiser com o tema que bem lhe apetecer. a sua forma é única e com ela jamais se poderá dar mal. 
estes miúdos são uns solitários, uns fora-da-lei, que roubam pelo prazer e não tanto pelo poder. sofia oferece-lhes um mundo próprio onde encaixam como reis, com o necessário distanciamento do real. eles fazem parte do sonho, da liberdade que advém do desconhecimento. depois há a outra parte, em que documenta mais criticamente, sem nunca roçar o agressivo, antes dando-lhe um tom cómico, como a paris hilton deixar as chaves de casa debaixo do tapete e depois a miúda querer levar-lhe o cão ou um dos miúdos do gang congratular-se com a quantidade de pedidos de amizade que tem no facebook. nenhum deles tem noção do que fez, das consequências, do que é a privacidade. são uma juventude perdida nos sonhos que hollywood lhes vendeu. a sua ingenuidade é quase comovente, a forma como falam e como se "defendem" perante as circunstâncias.

para a sofia, nota 10.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Oslo, 31. august, Joachim Trier



Segunda longa-metragem do realizador norueguês, depois da sua estreia, em 2006, com Reprise – que já contava com o actor Anders Danielsen Lie – esteve em competição no Lisbon & Estoril Film Festival’11.
Trabalho sobre a (im)possibilidade da escolha, sobre o arrependimento e a (in)capacidade de nos relacionarmos com segundos, sem os desiludir.
Anders é um ex-toxicodependente com demasiado tempo e poucas ambições. Dada a sua disponibilidade e amabilidade, escuta aqueles com quem se cruza, porque sente já não ter nada para contar. O som está tão magistralmente trabalhado que quase parece que ouvimos com os seus ouvidos, como quando escuta conversas separadas num café ou quando sai para a rua e, em vez de ouvirmos os carros que cruzam a estrada, continuamos absortos no seu mundo interior, que transporta demasiados pensamentos para se concentrar no meio ambiente.
O tema é pesado, mas os planos são belos, limpos, dotados de uma fotografia exemplar que nos acaricia o desconforto. Mesmo o último plano, apesar de dramático, contém uma certa dose de poesia.
Há também espaço para os pequenos gestos. Os primeiros vinte minutos são dedicados à longa conversa que tem com o amigo, com piadas sobre Proust à mistura, onde percebemos a intenção do personagem, para onde o filme caminha, mas isso é de menor importância, pois o que conta não é o destino, mas a viagem.
30 de Agosto é o dia em que Anders se despede da sua cidade e dos seus amigos, recorda conversas de outros tempos, e de algum modo responsabiliza os pais pela sua situação. O dia seguinte é aquele em que vê o sol nascer e lhe sorri, toca piano e se entrega ao seu mundo interior. A câmara mostra-nos os lugares que visitou no dia anterior, a vida que continua para além das pessoas que partem.
Anders Danielsen Lie protagoniza o filme notavelmente, sempre de cara crispada, deixando escapar sorrisos desmaiados em algumas ocasiões, como quando vai à pendura na bicicleta, numa das cenas mais belas do filme. O seu personagem é um desistente, recordando ao amigo o que este uma vez lhe disse: “Aqueles que se querem auto-destruir não devem ser impedidos pela sociedade”. Ninguém quer que Anders parta, mas ninguém acredita na sua recuperação. A irmã está tão amedrontada com a sua saída da clínica de desintoxicação que nem consegue encontrar-se com ele, mandando a namorada no seu lugar. Os pais estão em Nice a passear. O amigo diz-lhe para se encontrarem numa festa, na qual nunca aparece. Todos esperam, envergonhados, o dia em que a espera termine. É por isso que não o conseguem encarar. Porque não é só o fado que é trágico. A ignorância e a possibilidade de escolha também não são pêra doce.

sábado, 18 de agosto de 2012

The Future, Miranda July




Have you ever been outside?

Um casal na casa dos 30 vive num apartamento colorido e caótico, cada qual agarrado ao respectivo macbook, quando decide adoptar um gato a quem só resta meio ano de vida. Os dois parecem certos de que será um grande feito dar parte das suas vidas a um animal indefeso que deles precisa para sobreviver – e de quem eles precisam para se sentirem grandes. Só que, afinal, com algum jeitinho, o gato pode durar uns bons 5 anos aos seus cuidados, e aí a coisa começa a pesar-lhes. Vejamos: quando o gato morresse, já teriam 40 e já nada poderiam fazer com as suas vidas, porque dos 40 aos 50 é um dia e depois dos 50 acabou. Por sorte, o felino está nos cuidados intensivos e lá terá de permanecer por um mês. É então que o casal decide largar os empregos e fazer algo com propósito e significado durante os 30 dias de liberdade, porque, está mesmo a ver-se, o gato vai ser um fardo, assim mais ou menos como um filho. A ideia era ser uma espécie de preparação para o próximo nível – o filho, entenda-se – mas 5 anos – e tendo em conta que depois dos 50 não há nada a fazer – é um tempo consideravelmente longo.
Sophie (Miranda July), professora de dança para crianças, está obcecada com o sucesso que o vídeo de uma colega fez no youtube, e o objectivo de vida dela – sendo a vida esses 30 dias – é gravar uma coreografia por dia e pô-la online, de modo a ser reconhecida. Claro que a sua obsessão com o vídeo da outra e o seu estilo totalmente distinto, atrofia-a, frustra-a e impossibilita-a de levar o projecto avante. Necessitando estabelecer contacto com alguém, envolve-se com um desconhecido que até não se importava de partilhar a vida com ela, e Sophie responde-lhe: “If you watched me all the time I wouldn’t have to do anything”. Ou seja, atingido o objectivo, perde-se o encanto. Só não o alcançando se continua na estrada, a desbravar terreno.
Sophie falha completamente na sua descoberta. Não a vemos crescer, nem iluminar-se, nem mudar de atitude, nem conseguir o que queria, que não sabemos o que é, porque ela também não. É uma mulher perdida na inércia, com o relógio biológico a dar horas e com a força e o medo do instinto maternal a bater-lhe à porta. Em casa sentia-se protegida, sem grandes distracções ou atracções, mas agora, fora do seu forte, descobre uma parte adormecida dentro de si - a selvagem: “I have to tell you something. One thing is that I’m wild.” Tudo o que faz é irresponsável, despropositado e em nada preenchedor, mas, no final, arca com as consequências e, pelo menos, fica a saber o que não quer.
Jason (Hamish Linklater), por seu turno, é um pouco mais altruísta nas suas escolhas, escolhas que advêm de uma premissa maior: o estar atento e alerta para o que o mundo tem para lhe oferecer e que ele lhe pode devolver. Rompendo com o seu emprego de apoio técnico informático, junta-se a uma organização ambientalista e vai de porta em porta tentar vender árvores. Não é, no entanto, em nenhuma dessas portas que encontra uma ligação, mas sim na porta onde vai comprar um secador para Sophie, onde faz um amigo com quem almoça e escuta, enquanto a namorada está com o amante e dá por si escondida dentro da sua camisola protectora, incapaz de compreender e dominar as entranhas.
A grande revelação de Jason acontece quando pede a Sophie para se calar, no momento em que esta se prepara para dizer algo que vai mudar o rumo das suas vidas. Com a entrega e aprendizagem a que Jason se submeteu durante o mês, consegue parar o tempo para reflectir sozinho. Mas o seu amigo – a lua – está a olhar por ele e ajuda-o a descobrir dentro de si a aceitação. Quando Jason restabelece o compasso do tempo, os dias passaram, só ele é que os perdeu. A vida para além dele continuou o seu caminho. Jason nunca chega a escutar o que Sophie tinha para lhe dizer, assim como Paw-Paw, o gato, nunca é resgatado pela família de acolhimento, porque os seus ‘pais’ estavam demasiado ocupados a gastar os últimos cartuxos antes de o terem a prendê-los. Mas Paw-Paw também encontra a aceitação e leva-nos a meditar sobre a mortalidade e a eternidade: “Living is just the beginning”.
Sophie e Jason não mais encontram o caminho de casa - “This is a totally new land now” – mas podem ter encontrado o seu próprio caminho. Não chegam à meta que estabeleceram – Paw-Paw - mas talvez essa meta não lhes estivesse destinada. E quem sabe o buraco que Gabriella cava é o fosso cada vez maior entre Sophie e Jason, ou a cova de Paw-Paw ou o buraco do Universo, onde todos mergulhamos um dia.
The Future é um excelente exercício sobre o pânico dos trintões que estudaram para ter um emprego satisfatório, mas os anos passam e esse dia não chega, e então há que se conformar com o que se tem e pensar em constituir família ou mandar tudo à fava e fazer umas quanta loucuras, enquanto ainda há tempo.
Outra característica curiosa prende-se com as semelhanças físicas entre Sophie e Jason, com os seus cabelos encaracolados, reflectindo sobre a possibilidade de pessoas que partilham o mesmo espaço durante muito tempo se começarem a parecer – e a perder a individualidade.
O mundo de July é muito particular e não costuma ser recebido com meias medidas: ou se gosta muito ou não se gosta nada. Mas até os haters conseguem distanciar-se e dar-lhe, pelo menos, o mérito de criar uma atmosfera própria para personagens singulares com uma pitada de magia e fantástico que pode ir desde uma camisola com vida própria, um gato e uma lua que falam ou poderes sobre o tempo.
July segue assim o traço de realizadores como Wes Anderson ou Noah Baumbach. É difícil ficar indiferente a qualquer um deles.