quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Frances Ha



Estes dias tenho-me lembrado muito da Frances. Fui dispensada das minhas funções e também me disseram que sou muito boa mas isso não me paga a renda. A Frances é o rosto da minha geração. Licenciada e disposta a seguir os seus sonhos, passa os dias adiando decisões inevitáveis e procrastinando no sofá em frente à tv ou ao computador. Muda de casa como quem muda de peúgas, mas essas ela nunca tira, porque a melhor amiga que a lembrava disso, a deixou por uma rua melhor. Então ela ficou perdida porque precisava de alguém que cuidasse dela, porque é uma criança grande numa das maiores cidades do mundo, ainda assim pequena para a grandeza das coisas a que se propõe. Frances está longe de se acomodar. Não pára de um lado para o outro, e ao mesmo tempo passa dias inteiros cheia de projectos que acaba por não concretizar. Ainda assim, tem uma energia estonteante que contagia tudo à sua volta e que se manifesta nos movimentos sem jeito e nas palavras atrapalhadas.
Esta cena (carregar na cena) simboliza o conto de fadas em que vive. Não é assim tão improvável uma situação destas existir e é bonito pensar que existe, algures, ou que existiu, um dia. Mas é apenas uma cena no todo do amor e a longo prazo é uma quimera. Frances acredita que pode perdurar e nós acreditamos com ela. No final, troca esse olhar cúmplice com a sua pessoa, Sophie, a melhor amiga que a deixou por uma rua melhor, e depois pelo homem com quem se casou. Ela decidiu crescer enquanto Frances dava ainda luta à idade adulta. Foi a Paris com dinheiro que não era seu e deixou-se dormir o dia todo. Não conseguiu traçar um plano sozinha e ficou à espera de uma chamada que chegou tarde demais. Foi a casa dos pais no Natal, enganando um pouco mais a idade. E quando finalmente viu a sua carreira de bailarina caída na sarjeta, fez o melhor que podia com aquilo que tinha. Aceitou o trabalho de secretária na companhia e levou ao palco a sua coreografia. Abdicou do sonho e entregou-se à vida. Quem não tem cão caça com gato. E deu-se bem, melhor que muitos de nós. Vale a pena tentar, pelo menos. Só temos que deixar a bagunça do amor e da vida de parte. Frances dança estes tempos modernos com uma leveza inspiradora. Obrigada a ela e a ela, Greta, e ao Noah. Amanhã vou à procura de um novo trabalho.

sábado, 19 de outubro de 2013

Io e Te



Na passada semana fui, sem grandes expectativas, ver o Io e Te. Tinha ficado com uma ideia um bocado chata depois de ver o trailer. Estupidez minha. Bertolucci pega nos dois jovens - um enterrado a fundo no desconforto da puberdade, outra a arrancar os últimos bocados de uma extravagante e decadente adolescência que se prolonga pela casa dos 20 - e encerra-os numa cave bafienta, recheada de antiguidades, cenário idílico como exercício de estilo de uma requintada decadência. Decadentes são também as suas vidas, uma física, outra moralmente. À medida que o espaço vai ganhando forma, eles também se vão erguendo. Porque às vezes é preciso cair no fundo para nos levantarmos. O miúdo não quer ser incomodado durante uma semana e trata de tudo para ficar sozinho e tranquilo, mas a meia-irmã entra-lhe por ali adentro e, dado o seu estado, ele não tem outro remédio que não aprender a cuidar e a estar com alguém. Com ela, experiencia o que é sentir-se ligado a outro ser humano. Olivia vem dar vida e explorar o potencial da cave, ajudando Lorenzo a sair do buraco em que se enclausurou para se sentir livre e seguro. O desafio é fazer essa sensação perdurar fora de grades. Ela foi ensiná-lo a crescer, mas fá-lo de forma bastante passiva. É o miúdo que trata dela e a ajuda, ao deparar com uma realidade completamente desconhecida. E nessa tenra idade sentimo-nos importantes quando somos úteis e fazemos coisas pelos outros. Lorenzo fez tudo o que podia pela irmã e a sua devoção foi retribuída com o amor que precisava para acalmar o seu espírito tumultuoso. Há uma aura constante de sensualidade a pairar no ar. Olivia é uma deusa rebelde, e a sua beleza - dissecada à lupa pelo rapaz - serve como objecto de idolatração. Ela não é um modelo a seguir, mas alguém com uma experiência que ele não tem, que lhe mostra que a vida são dois dias e que as crises existenciais têm de acabar num deles. A escolha é dele. E dela. Quando, inocentemente, Lorenzo lhe dá os cigarros com a droga lá dentro, Olivia deixa de poder encerrar ali os seus problemas. Leva-os consigo e terá ou não coragem para resistir à tentação da maçã proibida. A cena em que Tea Falco dança a Ragazzo Solo, Ragazza Sola do Bowie é a mais bela do filme. A letra é a narrativa. É nesse momento que a aura de sensualidade cai e dá lugar a um abraço fraterno. 




Eu chorei quando o filme acabou. Fui em crescendo com ele, largando as amarras e deixando as emoções eclodir pela sala escura. Eu lembrei-me que já fui os dois irmãos e senti uma certa nostalgia de um tempo cheio de agitações e incertezas, de amores e desencontros. Passados mais de 15 anos desde Stealing Beauty, Bertolucci não perdeu o tacto, mas eu perdi a idade da inocência e a bagagem é uma coisa pesada.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ainda Kiarostami. assim é o amor.




Decorrida uma semana, Like someone in love continua tão presente que não consigo ver outro filme. Também não consigo sair à rua e lidar com o sol a arder sem glória, amolecido pelo temporal que se colou à pele e a fez suar as vísceras. O sol veio dizer adeus e não gosto de despedidas.
Por falar nisso, esta semana vi o episódio final de Breaking Bad, que seria óptimo, se tivesse terminado mais cedo. Já para não mencionar o de Dexter, que foi assim a banhada total. Daí continuar a aplaudir Kiarostami, que não se lembrando de mais nada, parou o filme ali e pronto. Gosto de finais que deixem as coisas a arder, que não resolvam nada, que deixem a história/o mundo em aberto.
Também esta semana, uma amiga dizia-me que um filme vale somente pela história e que lhe cansam os críticos que “perdem tempo” a falar da mise-en-scène, dos planos e “do resto”. Pois eu podia ficar horas a falar de planos. É tão belo o filme contar histórias através deles, deixar-se guiar sem um fim. Foram os planos que me fizeram ficar embasbacada com Breaking Bad, porque aquilo é coisa de cinema e é preciso um gajo arriscar a sério para fazer uma série assim.
Kiarostami não interfere com a vida que lhe entra pela câmara. Não conta a história, deixa a história contar-se. Uma história universal que é dele e de cada um de nós. Já todos fomos Akiko, à procura de algo e a tentar esconder o algo que somos de outro. Ou o namorado ciumento e obsessivo que sabe estar a ser enganado. Ou mesmo a vizinha com quem noutra altura nos podíamos ter cruzado e agora é tarde. Só não fomos a avó, por falta de filhos com que nos preocupar, ou Takashi, por força da tenra idade e de dias por viver.
Na cena no carro entre Takashi e o namorado,  o mais velho parece conter em si todo o conhecimento. Mas nunca diz nada específico, apenas solta linhas condutoras. When you know you will be lied to, it’s better not to ask. Não foi por falta de aviso que o namorado se deixou ser aldrabado. Continuou ali, preso num cubículo com um estranho, a tentar ser bem educado, a explicar as razões pelas quais quer casar com Akiko, todas ao lado, e não sabemos se está apaixonado ou obcecado por ganhar a batalha do amor. Ele não quer deixar que ela Seja, quer moldá-la a seu gosto. Mas não quererá Takashi o mesmo?
Kiarostami não quer moldar nada. Deixa que uma transeunte, que passa duas vezes com crianças vestidas de bruxas, fique confusa com o carro que sai do estacionamento e se ponha a olhar em todas as direcções. Dá tempo a Takashi para descer as escadas do prédio, deixa-o adormecer durante o sinal vermelho e que o trânsito interfira quando vai buscar Akiko, tendo de fazer inúmeras manobras até conseguir chegar a ela.
Todos eles (e todos nós) trocam impressões e expressões de amor, como quem está apaixonado. assim é o amor, uma estupidez intermitente mas universal, já dizia o valter.

domingo, 29 de setembro de 2013

Like someone in love


When you know you will be lied to, it’s better not to ask.



Foram precisas três vezes para conseguir ver o novo filme do Kiarostami de uma ponta a outra, facto que não é inédito na minha relação com os seus filmes. A primeira vez que tentei foi especialmente dura, logo na cena inicial filmada sobre uma claustrofobia exasperante que luta por agarrar a rapariga. Os figurantes parece que vão ali ficar para sempre, e ela apenas sai para dentro de um táxi. É neste ambiente que somos apresentados a Akiko, antes mesmo de lhe conhecermos o rosto. Ao telefone, mente passiva e descaradamente ao namorado desconfiado. Queixa-se ao patrão que tem exame no dia seguinte, não podendo por isso trabalhar nessa noite, para além de ainda ter a avó à sua espera. Mas desde o início que a decisão está tomada, de outro modo não estaria ali e sim a estudar. Ter trabalho marcado para essa noite é a desculpa que dá a si mesma para não ter de se justificar perante a avó. Akiko está sempre impávida e nunca sabemos bem quais os seus verdadeiros sentimentos. Quando se exalta no bar, a câmara não a filma, voltando a ela quando já está serena. Quando, mais à frente, discute com o namorado à entrada da faculdade, mal a ouvimos. Ainda na cena inicial, tem o cuidado de pedir o batom à amiga, que coloca no fim de ouvir as comoventes mensagens que a avó lhe deixou durante todo o dia que passou à espera dela na estação de comboios, por entre as quais lhe diz: “She looks like you but she doesn’t”. Habituada a representar diferentes personas de noite, conforme o trabalho a obriga, Akiko não sabe em que persona se encaixar. Ver a avó é porventura voltar à pessoa que era há dois anos atrás, antes de entrar em Tóquio. Não sabemos bem por que está a estudar, pois parece pouco interessada, não respondendo correctamente a uma pergunta simples do exame. Não sabemos se gosta do namorado ou do que gosta nele, nem ela própria sabe. Anda ali à deriva, a tentar ser alguém. Alguém como a rapariga do quadro, a filha ou a mulher de Takashi.
Foi mais ou menos por esta altura que tive de parar. A capacidade que a avó tem de colocar doçura em todas as palavras, quando o que sente é desespero, a sua silhueta, ao longe, rodando a cabeça em todas as direcções à procura da neta, ainda com um fio de esperança, estilhaçou-me o coração.
Dias depois, reiniciei-o e consegui ir até ao vulto de Akiko reflectido no espelho do quarto de Takashi, um vulto esfumado como alguém que não conhecemos ou como uma aguarela que desaparece com a chuva. O desconforto de Takashi é estupidamente bem conseguido para um actor não-profissional. Ao contrário dela, ele não sabe como se comportar numa situação destas, ou sequer o que quer daquela miúda. Acaba por se sentir envergonhado por entrar para a contagem dos homens que a oprimem e a afastam da busca interior que deixou suspensa, não conseguindo encaixar em nenhum lugar. Assim sendo, o melhor que Takashi pode fazer é tomar conta dela e ajudá-la a descobrir-se. Ser a avó que ela rejeitou. Claro que as suas boas intenções caem por terra quando confrontadas com o namorado de Akiko, o único personagem que se comporta como os sentimentos ditam e que sabe o que quer, ainda que pelos motivos errados.
Nisto já eu ia na terceira tentativa, que foi definitiva e terminou abruptamente, com o micro-ondas a dar o sinal de alarme. Cheguei ao fim de coração acelerado e não consigo pensar num final melhor que aquele. E quem diz final, diz princípio e meio. Kiarostami é daqueles realizadores que não precisa de palavras para se expressar. Podia ver os seus personagens a passear de carro por uma qualquer cidade durante horas, observando no vidro o reflexo dos lugares por onde passavam, as nuvens no céu, os semáforos. Kiarostami não precisa de dizer nada porque está lá tudo. A personagem mais querida do filme é a avó e nem lhe conhecemos o rosto. É a que mais se esforça por conseguir entrar, com cuidado e delicadeza, a que fala sem obter resposta. Kiarostami não precisa de um rosto, quando tem uma voz. O contrário, claro, também se verifica. Akiko pouco se manifesta porque a sua expressão fala por si. O professor é ao mesmo tempo apaziguador e catalisador de revolta. Tentando proporcionar um equilíbrio ao jovem casal e a cada um individualmente, é sacrificado por se envolver num amor que não é seu, porque estava sozinho e queria companhia, porque se sentiu culpado, porque tentou ser peixe e carne.

Preciso de tempo extra para dedicar a Kiarostami. Ele faz-nos ver a vida quando não estamos preparados. É um dos meus realizadores vivos preferidos e não consigo falar sobre ele porque o amo. As coisas que amo, eu só olho e qualquer palavra não quer dizer nada. Não tinha em mente escrever e sinto-me até envergonhada por o ter feito, tão pequena sou perante ele e a vida. Mas é domingo à noite e estou sozinha em casa, como alguém que finge estar apaixonado pela chuva, quando a roupa não seca e as camisas brancas não nascem nos cabides.

sábado, 24 de agosto de 2013

the bling ring




foi preciso vir aí a sofia coppola para eu actualizar este inanimado blog. e se a desculpa do "não tenho tempo" não é mentira nenhuma, menos não é a de que a preguiça vai esticando e ganha assento oficial.
a sofia, essa, é que não se sentou à sombra da bananeira, e pegou na história mais oca possível e atirou à cara de quem quer ver que é capaz de fazer um filme tão belo quanto quiser com o tema que bem lhe apetecer. a sua forma é única e com ela jamais se poderá dar mal. 
estes miúdos são uns solitários, uns fora-da-lei, que roubam pelo prazer e não tanto pelo poder. sofia oferece-lhes um mundo próprio onde encaixam como reis, com o necessário distanciamento do real. eles fazem parte do sonho, da liberdade que advém do desconhecimento. depois há a outra parte, em que documenta mais criticamente, sem nunca roçar o agressivo, antes dando-lhe um tom cómico, como a paris hilton deixar as chaves de casa debaixo do tapete e depois a miúda querer levar-lhe o cão ou um dos miúdos do gang congratular-se com a quantidade de pedidos de amizade que tem no facebook. nenhum deles tem noção do que fez, das consequências, do que é a privacidade. são uma juventude perdida nos sonhos que hollywood lhes vendeu. a sua ingenuidade é quase comovente, a forma como falam e como se "defendem" perante as circunstâncias.

para a sofia, nota 10.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Oslo, 31. august, Joachim Trier



Segunda longa-metragem do realizador norueguês, depois da sua estreia, em 2006, com Reprise – que já contava com o actor Anders Danielsen Lie – esteve em competição no Lisbon & Estoril Film Festival’11.
Trabalho sobre a (im)possibilidade da escolha, sobre o arrependimento e a (in)capacidade de nos relacionarmos com segundos, sem os desiludir.
Anders é um ex-toxicodependente com demasiado tempo e poucas ambições. Dada a sua disponibilidade e amabilidade, escuta aqueles com quem se cruza, porque sente já não ter nada para contar. O som está tão magistralmente trabalhado que quase parece que ouvimos com os seus ouvidos, como quando escuta conversas separadas num café ou quando sai para a rua e, em vez de ouvirmos os carros que cruzam a estrada, continuamos absortos no seu mundo interior, que transporta demasiados pensamentos para se concentrar no meio ambiente.
O tema é pesado, mas os planos são belos, limpos, dotados de uma fotografia exemplar que nos acaricia o desconforto. Mesmo o último plano, apesar de dramático, contém uma certa dose de poesia.
Há também espaço para os pequenos gestos. Os primeiros vinte minutos são dedicados à longa conversa que tem com o amigo, com piadas sobre Proust à mistura, onde percebemos a intenção do personagem, para onde o filme caminha, mas isso é de menor importância, pois o que conta não é o destino, mas a viagem.
30 de Agosto é o dia em que Anders se despede da sua cidade e dos seus amigos, recorda conversas de outros tempos, e de algum modo responsabiliza os pais pela sua situação. O dia seguinte é aquele em que vê o sol nascer e lhe sorri, toca piano e se entrega ao seu mundo interior. A câmara mostra-nos os lugares que visitou no dia anterior, a vida que continua para além das pessoas que partem.
Anders Danielsen Lie protagoniza o filme notavelmente, sempre de cara crispada, deixando escapar sorrisos desmaiados em algumas ocasiões, como quando vai à pendura na bicicleta, numa das cenas mais belas do filme. O seu personagem é um desistente, recordando ao amigo o que este uma vez lhe disse: “Aqueles que se querem auto-destruir não devem ser impedidos pela sociedade”. Ninguém quer que Anders parta, mas ninguém acredita na sua recuperação. A irmã está tão amedrontada com a sua saída da clínica de desintoxicação que nem consegue encontrar-se com ele, mandando a namorada no seu lugar. Os pais estão em Nice a passear. O amigo diz-lhe para se encontrarem numa festa, na qual nunca aparece. Todos esperam, envergonhados, o dia em que a espera termine. É por isso que não o conseguem encarar. Porque não é só o fado que é trágico. A ignorância e a possibilidade de escolha também não são pêra doce.

sábado, 18 de agosto de 2012

The Future, Miranda July




Have you ever been outside?

Um casal na casa dos 30 vive num apartamento colorido e caótico, cada qual agarrado ao respectivo macbook, quando decide adoptar um gato a quem só resta meio ano de vida. Os dois parecem certos de que será um grande feito dar parte das suas vidas a um animal indefeso que deles precisa para sobreviver – e de quem eles precisam para se sentirem grandes. Só que, afinal, com algum jeitinho, o gato pode durar uns bons 5 anos aos seus cuidados, e aí a coisa começa a pesar-lhes. Vejamos: quando o gato morresse, já teriam 40 e já nada poderiam fazer com as suas vidas, porque dos 40 aos 50 é um dia e depois dos 50 acabou. Por sorte, o felino está nos cuidados intensivos e lá terá de permanecer por um mês. É então que o casal decide largar os empregos e fazer algo com propósito e significado durante os 30 dias de liberdade, porque, está mesmo a ver-se, o gato vai ser um fardo, assim mais ou menos como um filho. A ideia era ser uma espécie de preparação para o próximo nível – o filho, entenda-se – mas 5 anos – e tendo em conta que depois dos 50 não há nada a fazer – é um tempo consideravelmente longo.
Sophie (Miranda July), professora de dança para crianças, está obcecada com o sucesso que o vídeo de uma colega fez no youtube, e o objectivo de vida dela – sendo a vida esses 30 dias – é gravar uma coreografia por dia e pô-la online, de modo a ser reconhecida. Claro que a sua obsessão com o vídeo da outra e o seu estilo totalmente distinto, atrofia-a, frustra-a e impossibilita-a de levar o projecto avante. Necessitando estabelecer contacto com alguém, envolve-se com um desconhecido que até não se importava de partilhar a vida com ela, e Sophie responde-lhe: “If you watched me all the time I wouldn’t have to do anything”. Ou seja, atingido o objectivo, perde-se o encanto. Só não o alcançando se continua na estrada, a desbravar terreno.
Sophie falha completamente na sua descoberta. Não a vemos crescer, nem iluminar-se, nem mudar de atitude, nem conseguir o que queria, que não sabemos o que é, porque ela também não. É uma mulher perdida na inércia, com o relógio biológico a dar horas e com a força e o medo do instinto maternal a bater-lhe à porta. Em casa sentia-se protegida, sem grandes distracções ou atracções, mas agora, fora do seu forte, descobre uma parte adormecida dentro de si - a selvagem: “I have to tell you something. One thing is that I’m wild.” Tudo o que faz é irresponsável, despropositado e em nada preenchedor, mas, no final, arca com as consequências e, pelo menos, fica a saber o que não quer.
Jason (Hamish Linklater), por seu turno, é um pouco mais altruísta nas suas escolhas, escolhas que advêm de uma premissa maior: o estar atento e alerta para o que o mundo tem para lhe oferecer e que ele lhe pode devolver. Rompendo com o seu emprego de apoio técnico informático, junta-se a uma organização ambientalista e vai de porta em porta tentar vender árvores. Não é, no entanto, em nenhuma dessas portas que encontra uma ligação, mas sim na porta onde vai comprar um secador para Sophie, onde faz um amigo com quem almoça e escuta, enquanto a namorada está com o amante e dá por si escondida dentro da sua camisola protectora, incapaz de compreender e dominar as entranhas.
A grande revelação de Jason acontece quando pede a Sophie para se calar, no momento em que esta se prepara para dizer algo que vai mudar o rumo das suas vidas. Com a entrega e aprendizagem a que Jason se submeteu durante o mês, consegue parar o tempo para reflectir sozinho. Mas o seu amigo – a lua – está a olhar por ele e ajuda-o a descobrir dentro de si a aceitação. Quando Jason restabelece o compasso do tempo, os dias passaram, só ele é que os perdeu. A vida para além dele continuou o seu caminho. Jason nunca chega a escutar o que Sophie tinha para lhe dizer, assim como Paw-Paw, o gato, nunca é resgatado pela família de acolhimento, porque os seus ‘pais’ estavam demasiado ocupados a gastar os últimos cartuxos antes de o terem a prendê-los. Mas Paw-Paw também encontra a aceitação e leva-nos a meditar sobre a mortalidade e a eternidade: “Living is just the beginning”.
Sophie e Jason não mais encontram o caminho de casa - “This is a totally new land now” – mas podem ter encontrado o seu próprio caminho. Não chegam à meta que estabeleceram – Paw-Paw - mas talvez essa meta não lhes estivesse destinada. E quem sabe o buraco que Gabriella cava é o fosso cada vez maior entre Sophie e Jason, ou a cova de Paw-Paw ou o buraco do Universo, onde todos mergulhamos um dia.
The Future é um excelente exercício sobre o pânico dos trintões que estudaram para ter um emprego satisfatório, mas os anos passam e esse dia não chega, e então há que se conformar com o que se tem e pensar em constituir família ou mandar tudo à fava e fazer umas quanta loucuras, enquanto ainda há tempo.
Outra característica curiosa prende-se com as semelhanças físicas entre Sophie e Jason, com os seus cabelos encaracolados, reflectindo sobre a possibilidade de pessoas que partilham o mesmo espaço durante muito tempo se começarem a parecer – e a perder a individualidade.
O mundo de July é muito particular e não costuma ser recebido com meias medidas: ou se gosta muito ou não se gosta nada. Mas até os haters conseguem distanciar-se e dar-lhe, pelo menos, o mérito de criar uma atmosfera própria para personagens singulares com uma pitada de magia e fantástico que pode ir desde uma camisola com vida própria, um gato e uma lua que falam ou poderes sobre o tempo.
July segue assim o traço de realizadores como Wes Anderson ou Noah Baumbach. É difícil ficar indiferente a qualquer um deles.

sábado, 12 de maio de 2012

O monte dos vendavais



Todos nós conhecemos a história clássica de Cathy e Heathcliff, do romance de Emily Bronte, publicado em 1847, ou quanto mais não seja da música da Kate Bush - How could you leave me when I needed to possess you? I hated you, I loved you too. Arnold filma a paixão entre os dois irmãos emprestados através dos instintos mais básicos e primitivos do ser humano. Os dois jovens lutam, despem-se, tocam-se, esfregam-se, olham-se, cheiram-se, e não trocam uma palavra porque o seu entendimento vem de algo anterior, apenas existente no plano sensorial. Eles são o mundo que os envolve - os cavalos velozes, o vento, a chuva, o sol, as penas, os frutos - e a tempestade que assola o monte diariamente é a que corre nos seus corpos. A câmara de Arnold segue os personagens, anda atrás deles e deixa que sintamos o seu cheiro, porque é assim que eles se reconhecem, como animais selvagens. Quase não existe banda sonora, a não ser as músicas tradicionais que Cathy canta, o vendaval e a balada dos amantes renegados, no fim, composta pelos Mumford & Sons, que se intitula, exactamente, The Enemy. Heathcliff chega ali como um estrangeiro e é olhado com um misto de atracção e repulsa. As sensações que a sua presença despoleta instalam a desordem, e um caos fundamental abate-se sobre aquele lugar, fazendo com que todos se tornem escravos uns dos outros e de si próprios. Não há salvação possível porque todos são cúmplices do pecado primordial que o rapaz negro representa. Ele é o adversário e o fruto proibido. Assim, um a um, pagam a rejeição: primeiro o pai, depois o filho, Cathy e finalmente Heathcliff, o fantasma que lá permanece a agonizar. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Aos crocodilos mete-se-lhes um pau na boca




Tabu é o monte de uma colónia portuguesa em África, no principio dos anos 60. Lá se instalaram jovens ricos e aventureiros que se divertem com corridas de automóveis, caçadas, bailes e festas. O amanhã é coisa que não lhes tira o sono, até que uma barriga começa a crescer - e com ela o peso de um amor ilícito – e um assassinato despoleta a revolta dos locais. Mas antes de Tabu há um prédio em Lisboa onde vivem três senhoras sozinhas que cuidam umas das outras porque na velhice não há muito que fazer. Uma delas está senil, mas é a que tem mais memórias. As outras não tiveram tempo para as construir porque passaram a vida ocupadas a tratar dos outros – uma porque era Santa e escrava, a outra porque queria ser santa e activista política. É então a velha senil, Aurora (não a de Puiu, mas a de Murnau) que as encaminha até uma floresta artificial num qualquer centro comercial onde vão escutar uma história: a sua e a do monte Tabu. É o homem que Aurora lá conheceu que a conta, enquanto nós a vemos decorrer com os sons da selva, dos carros, dos animais, dos tiros, da água, das músicas, mas sem nunca ouvirmos as palavras que os personagens trocam à nossa frente. Tudo o que temos são as memórias de Aurora – da aurora, da juventude, do paraíso - contadas pelo seu grande amor, com quem desenhava animais nas nuvens, passeava na savana e fazia amor clandestinamente. Esses foram os dias de paraíso, onde os meses passavam a voar. Depois veio a fuga, a deles e a dos retornados, dos dias que não sabem para onde ir e se arrastam sem um propósito. Mas África continuou presente na arquitectura, na decoração e na Santa que não fala porque cada macaco no seu galho. No monte Tabu os macacos andavam à solta, os crocodilos fugiam para o quintal dos vizinhos e eram tratados como filhos por quem não os podia ter. Antes a vida fazia-se de emoções pungentes e histórias exóticas. Depois cresce-se, parem-se crocodilos e crias, matam-se inocentes e escrevem-se cartas de amor que ficam por ler.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Minnie and Moskowitz (1971) John Cassavetes


Com pouco tempo para aqui vir, para aqui estar, não podia passar ao lado de Minnie and Moskowitz, que vi há poucos dias. Um amor sem razão, de total absurdo, não nasce, mas move-se, entra e sai deles e da vida deles. Gostam/não gostam, querem/não querem, não temos nada em comum/que se dane. Como se o amor não precisasse de nada para existir, apenas há ou não há. Amor, não, que isto é paixão assolapada, daquelas mesmo só dos filmes, mas não tem flores, nem beijos com língua, nem olhos a cintilar, nem palavras bonitas. É só a vida, a paixão como ela é mesmo: gritos, pancada, choradeira, álcool e desespero. A coisa não se faz por menos e o amor é fodido, tão fodido, que mais vale agarrar-se logo a pessoa mais incompatível que existir, ter um bando de filhos e deixar a vida acontecer. Moskowitz não é especialmente bonito, nem educado, nem rico, mas está capaz de fazer qualquer loucura por Minnie. E ela não quer, mas depois até gosta. Ela só quer alguém que cuide dela. Moskowitz dá-lhe isso, mas sempre de forma trágica e dolorosa, estilo faca e alguidar, tão necessário para manter a chama acesa. Porque o amor quer drama. É mais bonito, não sei. Nem importa. Deu-me para isto, também não sei porquê. O que interessa mesmo é a câmara de Cassavetes que não filma quem fala, mas quem ouve, que não se demora no acessório, no enchimento do chouriço, e apenas no essencial, que dá espaço aos personagens para se movimentarem, que não usa a fórmula tradicional, não mostra tudo o que acontece, todas as reacções dos personagens, antes as dá a entender através da expressão dos outros. É de génio. É a fórmula em que Canijo se tem baseado. Que não dá nada de mão beijada e que torna as possibilidades infinitas. Este filme tem tudo para ser perfeito. É um absurdo com conhecimento de causa. Uma percepção nítida da impossibilidade de amar para a vida. Pega no casal mais paradoxal de todos os tempos e faz as coisas acontecerem. Resultou. Na vida não resultaria, não haveria 5min de hipótese. Se calhar é aí que começa o erro. Mas que importa?