o meu pai diz que eu devia era ir estudar alemão em vez de estar toda a semana a ler o mesmo jornal. yeah? well, you know, that's just like, your opinion, man. mas se calhar ele tem razão. eu devia era ir estudar alemão, só que não me apetece nada. só me apetece ler o jornal, sublinhar, fazer círculos em nomes, chatear-me quando leio coisas com que não concordo nada, escrever qualquer coisa numa das folhas sobre x que me fez lembrar de y e assim por diante. adoro comparações. se calhar devia era ir estudar literatura comparada em vez de alemão. só que devem ser só livros chatos. ao menos as línguas aprendem-se com livros infantis. no outro dia aprendi imenso com um livro de uma criança de 2 anos. a Lúcia ensinou-me a minha palavra preferida em alemão, Spielplatz! tinha uma boa resposta para o meu pai. era assim: e tu devias era ir estudar latim em vez de estares toda a semana a ler o mesmo livro! já sei como se chama o livro, Alegria Breve. mas ainda bem que não respondi porque ele acabou o livro e ainda foi estudar latim e eu continuei a ler o mesmo jornal. a minha mãe sempre me disse: não respondas!
antes tentava escrever sobre cinema. agora não sei. quando for grande quero escrever para a pequenada.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
terça-feira, 19 de maio de 2020
Aqui é um bom lugar
E a ti, o que te faz sentir em casa?
a pergunta surge na exposição digital O que há neste lugar? do Museu da Paisagem, em diálogo com o livro O que há neste lugar? Guia de exploração da paisagem da Maria Manuel Pedrosa e da Joana Estrela, que eu ainda não li, mas com que vou namorando pela internet.
a pergunta surge na exposição digital O que há neste lugar? do Museu da Paisagem, em diálogo com o livro O que há neste lugar? Guia de exploração da paisagem da Maria Manuel Pedrosa e da Joana Estrela, que eu ainda não li, mas com que vou namorando pela internet.

durante esta visita guiada, lembrei-me de uma bela paisagem que vi, ainda em Berlim, ia já março a findar. caminhava sem pressa pela rua longa e larga que foi casa de sol e de solitude, ainda a sorrir por causa das macacas desenhadas no chão pelas crianças, uma a giz rosa, pequenininha, outra a giz amarelo, onde o meu pé ocupava exactamente a área de um quadrado, quando reparo numa senhora de risco ao meio e camisa preta a almoçar à janela. o sol do meio-dia ilumina-lhe a testa e o cabelo cinzento muito bem penteado. ela olhará para o prato. nunca olha para mim. nesse dia tive pena de não ter um telemóvel com câmara fotográfica e de não saber desenhar como a Joana Estrela. escrevi no caderno: hoje vi a paisagem mais bonita do mundo e lembrei-me das palavras da Sophia. A beleza não é um luxo para estetas privilegiados, não é um ornamento, a beleza não é para estar nos salões nem nos palácios. A beleza é para estar na rua e na casa de cada um. naquele dia a beleza estava naquele rés-do-chão da Gräfenbachstraße ao meio-dia.
nesta entrevista, a Sophia diz coisas muito interessantes sobre educação, cultura literária e cultura plástica e livros para crianças, que são livros de que gosto muito. há um, já não para crianças, mas para jovens, escrito pela Ana Pessoa e ilustrado pela Joana Estrela, que se chama Aqui é um bom lugar.
dentro do livro, a frase aparece numa página com um desenho que se parece com o Aduela. é bom ver lugares que conhecemos representados em livros. e faz sentido porque a Joana vive no Porto. já a Ana vive em Bruxelas e não sei se foi lá que passou por um café chamado Aqui. talvez o café se chame Ici. hoje sentei-me num banco do Parque Central da Amadora e pensei, aqui é um bom lugar. a Ana dedica o livro aos meus pais, que fazem da vida um bom lugar. há um par de semanas, o Gonçalo M. Tavares escrevia no seu diário, a casa de partida é a casa dos pais. mas por agora, aqui é um bom lugar. no livro, há ainda referência a um livro do Vergílio Ferreira chamado "Até ao fim". o meu pai anda a ler um livro do Vergílio Ferreira, mas não se chama assim. o personagem principal é um professor. o Vergílio também era professor. há uma escola em Carnide que tem o nome dele. uma vez fui lá ler uma composição a propósito de um concurso de escrita. já não sei sobre o que era, mas recordo-me que estava nervosa. não gosto de falar em público. não gosto especialmente de falar, mas gosto muito de escrever. do Vergílio só li aquele que era obrigatório na escola, "aparição". foi o meu preferido de entre aqueles que tínhamos de ler, "Memorial do Convento" e "Os Maias". de qualquer modo, sei como acaba o "Até ao fim". é assim: a vida inteira dentro de mim. dois livros com o mesmo fim!
segunda-feira, 5 de maio de 2014
sem eira nem beira
O ano começou,
já lá vão uns meses, e tive tempo para ver alguns filmes. O último foi o Tiny Furniture da Lena Dunham - para
quem não conhece, a tipa das Girls. É
basicamente o mesmo. Final da universidade, o já não ser (assim tão) jovem, mas
estar longe de tomar decisões adultas - esse limbo de quem termina os estudos e
é lançado aos leões. A personagem de Lena volta a casa da mãe, reencontra amigas
do secundário, faz um mais-ou-menos amigo e arranja um trabalheco sem ir à
procura dele - do qual não precisa assim tanto e pode eventualmente desistir.
Ela deseja coisas grandiosas, ser tão bem sucedida quanto a mãe, mas só a vemos
fazer uns vídeos para o youtube. É aquela vontade ociosa de exposição que a
tecnologia nos impõe e que acaba em vazio. Há demasiadas opções virtuais para
poucas oportunidades reais. Claro que os problemas dela são coisas de classe média
alta. Deixar um trabalho porque lhe apeteceu passar-se, tem o valor que tem,
dentro do contexto dela. Há quem não tenha essa opção. O resto é o resto. Não
quero realmente falar sobre este filme. Preferia falar sobre outro, como A Grande Beleza, mas há filmes que não são
de quem os escreve, mas de quem os sofre.
Nestes 4 meses fui a muitos lugares, não estando
realmente em nenhum sítio. Voltei a Lisboa, deixei-a levar-me nos seus eléctricos
cheios, de gente que não a conhece, Lisboa que é nossa e para eles se aperalta
- e volto à linha do meu comboio e vou com as mesmas caras pelas mesmas
paragens, de olhos fechados, as estações mudam e, durante viagem, o que há de firme passa e o que sempre se move permanece.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Another year
Este ano passou por mim como um
trovão. Não tive realmente tempo ou coragem para ver muitos filmes. Menos ainda
para escrever sobre eles. Mais tarde arrependi-me. Perdi o embalo. As coisas
que tinha a dizer ficaram por aqui soltas, misturadas com outras, e esta plataforma
parece às vezes já não me servir. Isto, claro, são desculpas. Vejo tanta gente
escrever tão bem todos os dias e pergunto-me como conseguem. Como conseguem,
com todas as ideias que têm somadas às ideias que os atacam e que não são deles
e ainda àquelas onde não conseguem chegar. É preciso dedicação. E é preciso
aceitar a solidão da palavra. Este ano dediquei-me a passar a palavra de
outros. A minha não me dava sustento, e assim se foi arrastando para longe.
Quando os outros arranjaram uma boca mais nova e mais barata que passasse a
palavra deles, calaram-me. E então fiquei muda. Sem a deles nem a minha. Um
Homem não é ninguém sem a sua palavra. Eu tinha os meus filmes. E eis que fui
rever os que me ensinaram a ver, a pensar e a escrever. Foi em boa hora que
pude ver na tela O Gosto do Saké, Tokyo Story e Primavera Tardia de Ozu, ou que tive em casa um projector onde vi
filmes do John Ford e do Jarmusch, ou ainda a feira de natal do cinema ideal
onde comprei filmes do Mike Leigh por tuta e meia. Foi também, longe ia o verão,
que vi Aquele querido mês de Agosto e
As praias de Agnès. E se há pessoa
que me inspirou foi ela, que, sem vergonha e com toda a honestidade, diz que
quando tinha uns 26 anos e começou a fazer filmes, tinha visto, por alto, cerca
de 8. 26 anos tenho eu e pensava ser muito tarde para (re)aprender as palavras,
juntá-las e dar-lhes voz. Talvez seja, talvez não. Não é ainda a hora de
descobrir. Com o ano a chegar ao fim, fica o registo dos filmes estreados em
sala de que mais gostei. Com evidente destaque para Like Someone in Love de Abbas Kiarostami, e Io e Te de Bernardo Bertolucci. A seguir, e sem nenhuma ordem que
valha a pena destacar: Frances Ha de
Noah Baumbach, La vie d’Adèle de
Abdellatif Kechiche, Noutro País de
Sang-soo Hong, De rouille et d’os de
Jacques Audiard, La Vénus à la fourrure
de Roman Polanski e The Bling Ring de
Sofia Coppola. Ainda não vi O grande mestre do Wong Kar-wai, mas deixo-vos um
excerto do Happy together que espero
servir de inspiração ao ano que se avizinha. A todos os que ainda me lêem,
e também aos outros, sejam felizes, à vossa maneira, juntos ou separados, se não aqui, no fim do mundo.
domingo, 27 de outubro de 2013
Les amants du Pont-Neuf
Dias depois de ver Mauvais
Sang, tive a feliz surpresa de ver Les
amants du Pont-Neuf na festa do cinema francês, com a minha querida amiga e
companheira Rita, que chorou e se assoou todo o tempo. Eu não chorei. Talvez
por ela ter chorado pelas duas, talvez por eu ter chorado mais que a conta no Like someone in love.
Eu fiquei boa parte do tempo a achar que o filme ia
acabar a qualquer momento. Porque podia ter terminado muito antes e seria
igualmente extraordinário. Mas Carax leva-o à exaustão, num tour de force de performances espantoso,
sem o qual podia cair no abismo. Depois do absoluto realismo das
primeiras cenas num abrigo para quem não o tem, alterna entre uma mise-en-scène sabiamente controlada, com
cenas bastante longas, e uma explosão de cores, sons e movimentos de câmara
arrojados e delirantes, num hino ao amor desmedido e louco.
Alex encontra Michèle a dormir nos seus aposentos. Ela
aparece-lhe como uma dádiva, da qual ele decide fazer o sentido da sua vida. Passam a depender um do outro: ele ajuda-a a caminhar por Paris, servindo-lhe
de bengala, ela oferece-lhe companhia à noite, ajudando-o a passar as suas
insónias. O amor é assim uma necessidade, algo a que se agarram para sobreviver.
A relação é tão degradada como a ponte em que vivem, uma fortaleza em colapso
físico e existencial. São egoístas, obsessivos e maquiavélicos.
Alex faz tudo para que Michèle não consiga contactar a sua antiga paixão,
põe o dinheiro que roubaram a jeito para que ela o derrube sobre o rio - com
medo de a perder se saírem daquela ponte - e pega fogo aos cartazes espalhados
pela cidade, preferindo que ela cegue a que se seja operada,
porque só em condições extremas o seu amor é válido.
Ele é prisioneiro da ponte, ela é uma turista
à procura de um escape. Quando finalmente o encontra, não tem problemas em drogar Alex e partir, deixando-lhe uma nota bastante desagradável sobre o
leito do seu amor.
O tempo passa e Michèle vai ao encontro de Alex. Percebemos que está com o médico que a operou, mas não consegue fugir ao fascínio que Alex e a vida que tiveram juntos despertam nela. O perigo, a ansiedade, o amor sem regras, cego e desmesurado. Quando se encontram no natal não há possibilidade de ficarem juntos porque a ponte (como eles) não é a mesma, não é já deles, é agora firme e aberta ao mundo. Ao perceber que não pode ficar com Michèle, Alex atira-os ao rio porque é preferível uma morte à morte do amor. São salvos por um barco (homenagem a L’Atalante e espécie de pré-Titanic), desta vez uma superfície em movimento que os transporta para longe daquele lugar sem nada para lhes oferecer. Decidem partir juntos numa nova aventura, renunciando à vida “normal” que tinham conseguido para si mesmos. Serão sempre os marginalizados lovers on the run que se deixam conduzir por paixões obsessivas, tão prazerosas como sofridas.
O tempo passa e Michèle vai ao encontro de Alex. Percebemos que está com o médico que a operou, mas não consegue fugir ao fascínio que Alex e a vida que tiveram juntos despertam nela. O perigo, a ansiedade, o amor sem regras, cego e desmesurado. Quando se encontram no natal não há possibilidade de ficarem juntos porque a ponte (como eles) não é a mesma, não é já deles, é agora firme e aberta ao mundo. Ao perceber que não pode ficar com Michèle, Alex atira-os ao rio porque é preferível uma morte à morte do amor. São salvos por um barco (homenagem a L’Atalante e espécie de pré-Titanic), desta vez uma superfície em movimento que os transporta para longe daquele lugar sem nada para lhes oferecer. Decidem partir juntos numa nova aventura, renunciando à vida “normal” que tinham conseguido para si mesmos. Serão sempre os marginalizados lovers on the run que se deixam conduzir por paixões obsessivas, tão prazerosas como sofridas.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Frances Ha
Estes dias tenho-me lembrado
muito da Frances. Fui dispensada das minhas funções e também me disseram que
sou muito boa mas isso não me paga a renda. A Frances é o rosto da minha
geração. Licenciada e disposta a seguir os seus sonhos, passa os dias adiando
decisões inevitáveis e procrastinando no sofá em frente à tv ou ao computador.
Muda de casa como quem muda de peúgas, mas essas ela nunca tira, porque a
melhor amiga que a lembrava disso, a deixou por uma rua melhor. Então ela ficou
perdida porque precisava de alguém que cuidasse dela, porque é uma criança
grande numa das maiores cidades do mundo, ainda assim pequena para a grandeza
das coisas a que se propõe. Frances está longe de se acomodar. Não pára de um
lado para o outro, e ao mesmo tempo passa dias inteiros cheia de projectos que
acaba por não concretizar. Ainda assim, tem uma energia estonteante que
contagia tudo à sua volta e que se manifesta nos movimentos sem jeito e
nas palavras atrapalhadas.
Esta cena (carregar na cena) simboliza o conto de
fadas em que vive. Não é assim tão improvável uma situação destas existir e é
bonito pensar que existe, algures, ou que existiu, um dia. Mas é apenas uma
cena no todo do amor e a longo prazo é uma quimera. Frances acredita que pode
perdurar e nós acreditamos com ela. No final, troca esse olhar cúmplice com a
sua pessoa, Sophie, a melhor amiga que a deixou por uma rua melhor, e depois
pelo homem com quem se casou. Ela decidiu crescer enquanto Frances dava ainda
luta à idade adulta. Foi a Paris com dinheiro que não era seu e deixou-se
dormir o dia todo. Não conseguiu traçar um plano sozinha e ficou à espera de
uma chamada que chegou tarde demais. Foi a casa dos pais no Natal, enganando um
pouco mais a idade. E quando finalmente viu a sua carreira de bailarina caída na
sarjeta, fez o melhor que podia com aquilo que tinha. Aceitou o trabalho de
secretária na companhia e levou ao palco a sua coreografia. Abdicou do sonho e
entregou-se à vida. Quem não tem cão caça com gato. E deu-se bem, melhor que
muitos de nós. Vale a pena tentar, pelo menos. Só temos que deixar a bagunça do
amor e da vida de parte. Frances dança estes tempos modernos com uma leveza inspiradora.
Obrigada a ela e a ela, Greta, e ao Noah. Amanhã vou à procura de um novo trabalho.
sábado, 19 de outubro de 2013
Io e Te
Na passada semana fui, sem grandes expectativas, ver
o Io e Te. Tinha ficado com uma
ideia um bocado chata depois de ver o trailer. Estupidez
minha. Bertolucci pega nos dois jovens - um enterrado a fundo no
desconforto da puberdade, outra a arrancar os últimos bocados de uma
extravagante e decadente adolescência que se prolonga pela casa dos 20 - e
encerra-os numa cave bafienta, recheada de antiguidades, cenário idílico como
exercício de estilo de uma requintada decadência. Decadentes são também as suas
vidas, uma física, outra moralmente. À medida que o espaço vai ganhando forma,
eles também se vão erguendo. Porque às vezes é preciso cair no fundo para nos
levantarmos. O miúdo não quer ser incomodado durante uma semana e trata de tudo
para ficar sozinho e tranquilo, mas a meia-irmã entra-lhe por ali adentro e,
dado o seu estado, ele não tem outro remédio que não aprender a cuidar e a
estar com alguém. Com ela, experiencia o que é sentir-se ligado a outro ser
humano. Olivia vem dar vida e explorar o potencial da cave, ajudando Lorenzo a
sair do buraco em que se enclausurou para se sentir livre e seguro. O desafio é
fazer essa sensação perdurar fora de grades. Ela foi ensiná-lo a crescer, mas
fá-lo de forma bastante passiva. É o miúdo que trata dela e a ajuda, ao deparar
com uma realidade completamente desconhecida. E nessa tenra idade sentimo-nos
importantes quando somos úteis e fazemos coisas pelos outros. Lorenzo fez tudo
o que podia pela irmã e a sua devoção foi retribuída com o amor que precisava
para acalmar o seu espírito tumultuoso. Há uma aura constante de
sensualidade a pairar no ar. Olivia é uma deusa rebelde, e a sua beleza -
dissecada à lupa pelo rapaz - serve como objecto de idolatração. Ela não é um
modelo a seguir, mas alguém com uma experiência que ele não tem, que lhe mostra
que a vida são dois dias e que as crises existenciais têm de acabar num deles.
A escolha é dele. E dela. Quando, inocentemente, Lorenzo lhe dá os cigarros com
a droga lá dentro, Olivia deixa de poder encerrar ali os seus problemas.
Leva-os consigo e terá ou não coragem para resistir à tentação da maçã
proibida. A cena em que Tea Falco dança a Ragazzo Solo, Ragazza Sola do Bowie é a mais bela do filme. A
letra é a narrativa. É nesse momento que a aura de sensualidade cai e dá lugar
a um abraço fraterno.
Eu chorei quando o filme
acabou. Fui em crescendo com ele, largando as amarras e deixando as emoções
eclodir pela sala escura. Eu lembrei-me que já fui os dois irmãos e senti uma
certa nostalgia de um tempo cheio de agitações e incertezas, de amores e
desencontros. Passados mais de 15 anos desde Stealing Beauty, Bertolucci não perdeu o tacto, mas eu perdi a
idade da inocência e a bagagem é uma coisa pesada.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
ainda Kiarostami. assim é o amor.
Decorrida uma semana, Like someone in love continua tão presente
que não consigo ver outro filme. Também não consigo sair à rua e lidar com o
sol a arder sem glória, amolecido pelo temporal que se colou à pele e a fez
suar as vísceras. O sol veio dizer adeus e não gosto de despedidas.
Por falar nisso, esta semana vi o episódio final de Breaking
Bad, que seria óptimo, se tivesse terminado mais cedo. Já para não mencionar o
de Dexter, que foi assim a banhada total. Daí continuar a aplaudir Kiarostami,
que não se lembrando de mais nada, parou o filme ali e pronto. Gosto de finais
que deixem as coisas a arder, que não resolvam nada, que deixem a história/o
mundo em aberto.
Também esta semana, uma amiga dizia-me que um filme vale
somente pela história e que lhe cansam os críticos que “perdem tempo” a falar
da mise-en-scène, dos planos e “do resto”. Pois eu podia ficar horas a falar de
planos. É tão belo o filme contar histórias através deles, deixar-se guiar sem
um fim. Foram os planos que me fizeram ficar embasbacada com Breaking Bad,
porque aquilo é coisa de cinema e é preciso um gajo arriscar a sério para fazer
uma série assim.
Kiarostami não interfere com a vida que lhe entra pela
câmara. Não conta a história, deixa a história contar-se. Uma história universal
que é dele e de cada um de nós. Já todos fomos Akiko, à procura de algo e a
tentar esconder o algo que somos de outro. Ou o namorado ciumento e obsessivo
que sabe estar a ser enganado. Ou mesmo a vizinha com quem noutra altura nos
podíamos ter cruzado e agora é tarde. Só não fomos a avó, por falta de filhos com
que nos preocupar, ou Takashi, por força da tenra idade e de dias por viver.
Na cena no carro entre Takashi e o namorado, o mais velho parece conter em si todo o
conhecimento. Mas nunca diz nada específico, apenas solta linhas condutoras. When you know you will be lied to, it’s better not to ask. Não foi por
falta de aviso que o namorado se deixou ser aldrabado. Continuou ali, preso num
cubículo com um estranho, a tentar ser bem educado, a explicar as razões
pelas quais quer casar com Akiko, todas ao lado, e não sabemos se está
apaixonado ou obcecado por ganhar a batalha do amor. Ele não quer deixar que
ela Seja, quer moldá-la a seu gosto. Mas não quererá Takashi o mesmo?
Kiarostami não quer moldar nada. Deixa que uma transeunte,
que passa duas vezes com crianças vestidas de bruxas, fique confusa com o carro
que sai do estacionamento e se ponha a olhar em todas as direcções. Dá tempo a
Takashi para descer as escadas do prédio, deixa-o adormecer durante o sinal
vermelho e que o trânsito interfira quando vai buscar Akiko, tendo de fazer
inúmeras manobras até conseguir chegar a ela.
Todos eles (e todos nós) trocam impressões e expressões de
amor, como quem está apaixonado. assim é o amor, uma estupidez intermitente
mas universal, já dizia o valter.
domingo, 29 de setembro de 2013
Like someone in love
When you know
you will be lied to, it’s better not to ask.
Foram precisas três vezes para conseguir ver
o novo filme do Kiarostami de uma ponta a outra, facto que não é inédito na
minha relação com os seus filmes. A primeira vez que tentei foi especialmente
dura, logo na cena inicial filmada sobre uma claustrofobia exasperante que
luta por agarrar a rapariga. Os figurantes parece que vão ali ficar para
sempre, e ela apenas sai para dentro de um táxi. É neste ambiente que somos apresentados
a Akiko, antes mesmo de lhe conhecermos o rosto. Ao telefone, mente passiva e
descaradamente ao namorado desconfiado. Queixa-se ao patrão que tem exame no
dia seguinte, não podendo por isso trabalhar nessa noite, para além de ainda
ter a avó à sua espera. Mas desde o início que a decisão está tomada, de outro
modo não estaria ali e sim a estudar. Ter trabalho marcado para essa noite é a
desculpa que dá a si mesma para não ter de se justificar perante a avó. Akiko
está sempre impávida e nunca sabemos bem quais os seus verdadeiros sentimentos.
Quando se exalta no bar, a câmara não a filma, voltando a ela quando já está
serena. Quando, mais à frente, discute com o namorado à entrada da faculdade, mal
a ouvimos. Ainda na cena inicial, tem o cuidado de pedir o batom à amiga, que
coloca no fim de ouvir as comoventes mensagens que a avó lhe deixou durante
todo o dia que passou à espera dela na estação de comboios, por entre as quais
lhe diz: “She looks like you but she
doesn’t”. Habituada a representar diferentes personas de noite, conforme o trabalho a obriga, Akiko não sabe em
que persona se encaixar. Ver a avó é
porventura voltar à pessoa que era há dois anos atrás, antes de entrar em
Tóquio. Não sabemos bem por que está a estudar, pois parece pouco interessada,
não respondendo correctamente a uma pergunta simples do exame. Não sabemos se
gosta do namorado ou do que gosta nele, nem ela própria sabe. Anda ali à
deriva, a tentar ser alguém. Alguém como a rapariga do quadro, a filha ou a
mulher de Takashi.
Foi mais ou menos por esta altura que tive de
parar. A capacidade que a avó tem de colocar doçura em todas as palavras, quando
o que sente é desespero, a sua silhueta, ao longe, rodando a cabeça em todas as
direcções à procura da neta, ainda com um fio de esperança, estilhaçou-me o
coração.
Dias depois, reiniciei-o e consegui ir até ao
vulto de Akiko reflectido no espelho do quarto de Takashi, um vulto esfumado
como alguém que não conhecemos ou como uma aguarela que desaparece com a chuva.
O desconforto de Takashi é estupidamente bem conseguido para um actor
não-profissional. Ao contrário dela, ele não sabe como se comportar numa
situação destas, ou sequer o que quer daquela miúda. Acaba por se sentir
envergonhado por entrar para a contagem dos homens que a oprimem e a afastam da
busca interior que deixou suspensa, não conseguindo encaixar em nenhum lugar.
Assim sendo, o melhor que Takashi pode fazer é tomar conta dela e ajudá-la a
descobrir-se. Ser a avó que ela rejeitou. Claro que as suas boas intenções caem
por terra quando confrontadas com o namorado de Akiko, o único personagem que
se comporta como os sentimentos ditam e que sabe o que quer, ainda que pelos
motivos errados.
Nisto já eu ia na terceira tentativa, que foi
definitiva e terminou abruptamente, com o micro-ondas a dar o sinal de alarme.
Cheguei ao fim de coração acelerado e não consigo pensar num final melhor que
aquele. E quem diz final, diz princípio e meio. Kiarostami é daqueles
realizadores que não precisa de palavras para se expressar. Podia ver os seus
personagens a passear de carro por uma qualquer cidade durante horas, observando
no vidro o reflexo dos lugares por onde passavam, as nuvens no céu, os
semáforos. Kiarostami não precisa de dizer nada porque está lá tudo. A
personagem mais querida do filme é a avó e nem lhe conhecemos o rosto. É a que mais
se esforça por conseguir entrar, com cuidado e delicadeza, a que fala sem obter
resposta. Kiarostami não precisa de um rosto, quando tem uma voz. O contrário,
claro, também se verifica. Akiko pouco se manifesta porque a sua expressão fala
por si. O professor é ao mesmo tempo apaziguador e catalisador de revolta.
Tentando proporcionar um equilíbrio ao jovem casal e a cada um individualmente,
é sacrificado por se envolver num amor que não é seu, porque estava sozinho e
queria companhia, porque se sentiu culpado, porque tentou ser peixe e carne.
Preciso de tempo extra para dedicar a
Kiarostami. Ele faz-nos ver a vida quando não estamos preparados. É um dos meus
realizadores vivos preferidos e não consigo falar sobre ele porque o amo. As
coisas que amo, eu só olho e qualquer palavra não quer dizer nada. Não tinha em
mente escrever e sinto-me até envergonhada por o ter feito, tão pequena sou
perante ele e a vida. Mas é domingo à noite e estou sozinha em casa, como
alguém que finge estar apaixonado pela chuva, quando a roupa não seca e as
camisas brancas não nascem nos cabides.
sábado, 24 de agosto de 2013
the bling ring
foi preciso vir aí a sofia coppola para eu actualizar este inanimado blog. e se a desculpa do "não tenho tempo" não é mentira nenhuma, menos não é a de que a preguiça vai esticando e ganha assento oficial.
a sofia, essa, é que não se sentou à sombra da bananeira, e pegou na história mais oca possível e atirou à cara de quem quer ver que é capaz de fazer um filme tão belo quanto quiser com o tema que bem lhe apetecer. a sua forma é única e com ela jamais se poderá dar mal.
estes miúdos são uns solitários, uns fora-da-lei, que roubam pelo prazer e não tanto pelo poder. sofia oferece-lhes um mundo próprio onde encaixam como reis, com o necessário distanciamento do real. eles fazem parte do sonho, da liberdade que advém do desconhecimento. depois há a outra parte, em que documenta mais criticamente, sem nunca roçar o agressivo, antes dando-lhe um tom cómico, como a paris hilton deixar as chaves de casa debaixo do tapete e depois a miúda querer levar-lhe o cão ou um dos miúdos do gang congratular-se com a quantidade de pedidos de amizade que tem no facebook. nenhum deles tem noção do que fez, das consequências, do que é a privacidade. são uma juventude perdida nos sonhos que hollywood lhes vendeu. a sua ingenuidade é quase comovente, a forma como falam e como se "defendem" perante as circunstâncias.
para a sofia, nota 10.
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