sábado, 23 de maio de 2020

Janela Indiscreta

ontem a mãe deixou-me ir ver livros. pus a máscara e corri pelas escadas acima mas parei logo no 1.º Direito a olhar para a menina à janela.



antes de voltar ao Godard, pensei trocar-lhe o nome para 3.º Direito, mas depois não consegui. folheei o livro da menina à janela rápido, porque a máscara fazia muita comichão, mas tive uma ideia para a minha composição! este fim-de-semana temos de escrever sobre a casa. eu sou como a Graça, também gosto muito de observar pessoas. há até pessoas que não vejo, mas escuto. por exemplo, hoje acordei com a mãe da Margarida a gritar com ela. gritava muito e depois ainda veio o pai gritar mais. a Margarida começou a chorar e eu já tinha o coração a bater rápido com tantos gritos. depois há a Matilde que mora no prédio em frente. como me mudei há pouco tempo, ainda não a conheço, mas já sei como se chama. Matiiiiiiilde! vai vestir o casaco, Matiiiiiiilde! grita-lhe a mãe e depois vem o pai para o irmão da Matilde ó, filho, então tu não vês a tua irmã? isto aqui é a Venteira e está sempre vento. a mãe e o pai da Matilde têm medo de constipações. no 4º andar do prédio da Matilde, vive um menino mais velho que não nos liga nenhuma. faz festinhas ao cão. o cão passa muito tempo à varanda, mas às vezes também passa tempo lá dentro e dorme sempre lá dentro. também lá vive uma gata que é muito amiga do cão. no 1º andar estão sempre pessoas diferentes e uma senhora sempre a limpar. limpa de máscara e de luvas e deixa sempre os lençóis brancos no estendal. no 2º andar do prédio da Matilde, vivem duas namoradas e dois namorados. 4 pessoas. uma delas faz ginástica todos os dias. têm uma televisão muito grande e vêem a sic.

as casas são todas diferentes e os lugares das casas também são diferentes. por exemplo, há terrenos que são só para casas. aprendi isto no outro dia com a mãe. entre um prédio e outro, havia um terreno com muitas ervas e eu disse
- mãe, olha aqui, um terreno! podemos fazer uma horta! 
- este terreno é para construir um prédio. 
mas por que não pode ser uma horta? 
- porque é muito caro para pôr aí umas couves.

depois comecei a olhar para os prédios e a perceber como o sol se ia embora mais cedo de uns andares que de outros e depois comecei a pensar e a pensar... da sub-cave ao sótão, há rés-do-chão com terraços e há janelas grandes e janelas pequenas. há até janelas que são duas portas que dão para varandas. há estúdios e há águas-furtadas. há casas de tijolo e casas de plástico. chamam-se tendas. há casas de cartão que não sei como se chamam. há casas umas em cima de outras e pessoas umas em cima de outras. há casas com frigorífico e casa de banho e há casas sem água nem luz. há casas de campo e casas de praia e há casas de banco de paragem de autocarro. há casas com cães e casas com gatas e há casas caras e casas com baratas. há casas que já não são casas nem são nada. dizem que vão ser condomínios de luxo. 
- mãe, o que é luxo? 
- luxo é isso que você está vendo.

a Adília Lopes diz que no Céu há muitas moradas. na terra também. isto foi a minha composição sobre a casa. caras casas, quem vê casas, não vê casarões.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Você sabe com quem está falando?

a pergunta surge no livro da Lilia Moritz Schwarcz Sobre o Autoritarismo Brasileiro - uma breve história de cinco séculos, sobre o qual ela falou ao ípsilon há umas semanas.



a frase lembrou-me um episódio passado há uns anos no ginásio clube português, ai não, afinal foi no ginásio de uma muito nobre instituição do nosso querido tugal em que estava eu, outra funcionária e o treinador. nisto desce-me o período e pergunto à colega que ainda não conheço por ser novata se tem um tampão, ao que ela me responde sabe com quem está a falar? nesse dia aprendi que a verticalidade não se perde nem quando estamos agachadas a fazer flexões, desprovidas de indumentárias que nos distingam, e que os anúncios da evax estavam a comunicar tão bem que aquela coisa do sangue azul lhe tinha subido à cabeça. perante tão excelso cartão de visita, só me ocorreu perguntar-lhe não me diga que usa moon cup? hoje desceu-me o período e ao pegar no ípsilon lembrei-me novamente deste episódio tão fairtrade

uns anos mais tarde, vinha a descer a Rua da Politécnica quando senti que me descia o período. entrei na Cister e perguntei se podia ir à casa de banho. depois de confirmar o meu sentimento, encaminhei-me a uma mesa onde várias mulheres conversavam e pedi-lhes um tampão ou um penso e quase todas enfiaram de imediato a mão à mala. saí de lá fina y segura e fui descansada da vida ler o caderno vermelho da rapariga karateka da Ana Pessoa com bonecada do Bernardo P. Carvalho para a Estrela porque às vezes também me dão laivos de realeza. 



a parte do fina y segura é a gozar. fui mas é toda curvada e com uma ganda moínha.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

uma segunda juventude

o meu pai diz que eu devia era ir estudar alemão em vez de estar toda a semana a ler o mesmo jornal. yeah? well, you know, that's just like, your opinion, man. mas se calhar ele tem razão. eu devia era ir estudar alemão, só que não me apetece nada. só me apetece ler o jornal, sublinhar, fazer círculos em nomes, chatear-me quando leio coisas com que não concordo nada, escrever qualquer coisa numa das folhas sobre x que me fez lembrar de y e assim por diante. adoro comparações. se calhar devia era ir estudar literatura comparada em vez de alemão. só que devem ser só livros chatos. ao menos as línguas aprendem-se com livros infantis. no outro dia aprendi imenso com um livro de uma criança de 2 anos. a Lúcia ensinou-me a minha palavra preferida em alemão, Spielplatz! tinha uma boa resposta para o meu pai. era assim: e tu devias era ir estudar latim em vez de estares toda a semana a ler o mesmo livro! já sei como se chama o livro, Alegria Breve. mas ainda bem que não respondi porque ele acabou o livro e ainda foi estudar latim e eu continuei a ler o mesmo jornal. a minha mãe sempre me disse: não respondas!



terça-feira, 19 de maio de 2020

Aqui é um bom lugar

E a ti, o que te faz sentir em casa? 

a pergunta surge na exposição digital O que há neste lugar? do Museu da Paisagem, em diálogo com o livro O que há neste lugar? Guia de exploração da paisagem da Maria Manuel Pedrosa e da Joana Estrela, que eu ainda não li, mas com que vou namorando pela internet. 




durante esta visita guiada, lembrei-me de uma bela paisagem que vi, ainda em Berlim, ia já março a findar. caminhava sem pressa pela rua longa e larga que foi casa de sol e de solitude, ainda a sorrir por causa das macacas desenhadas no chão pelas crianças, uma a giz rosa, pequenininha, outra a giz amarelo, onde o meu pé ocupava exactamente a área de um quadrado, quando reparo numa senhora de risco ao meio e camisa preta a almoçar à janela. o sol do meio-dia ilumina-lhe a testa e o cabelo cinzento muito bem penteado. ela olhará para o prato. nunca olha para mim. nesse dia tive pena de não ter um telemóvel com câmara fotográfica e de não saber desenhar como a Joana Estrela. escrevi no caderno: hoje vi a paisagem mais bonita do mundo e lembrei-me das palavras da Sophia. A beleza não é um luxo para estetas privilegiados, não é um ornamento, a beleza não é para estar nos salões nem nos palácios. A beleza é para estar na rua e na casa de cada um. naquele dia a beleza estava naquele rés-do-chão da Gräfenbachstraße ao meio-dia. 




nesta entrevista, a Sophia diz coisas muito interessantes sobre educação, cultura literária e cultura plástica e livros para crianças, que são livros de que gosto muito. há um, já não para crianças, mas para jovens, escrito pela Ana Pessoa e ilustrado pela Joana Estrela, que se chama Aqui é um bom lugar




dentro do livro, a frase aparece numa página com um desenho que se parece com o Aduela. é bom ver lugares que conhecemos representados em livros. e faz sentido porque a Joana vive no Porto. já a Ana vive em Bruxelas e não sei se foi lá que passou por um café chamado Aqui. talvez o café se chame Ici. hoje sentei-me num banco do Parque Central da Amadora e pensei, aqui é um bom lugar. a Ana dedica o livro aos meus pais, que fazem da vida um bom lugar. há um par de semanas, o Gonçalo M. Tavares escrevia no seu diário, a casa de partida é a casa dos pais. mas por agora, aqui é um bom lugar. no livro, há ainda referência a um livro do Vergílio Ferreira chamado "Até ao fim". o meu pai anda a ler um livro do Vergílio Ferreira, mas não se chama assim. o personagem principal é um professor. o Vergílio também era professor. há uma escola em Carnide que tem o nome dele. uma vez fui lá ler uma composição a propósito de um concurso de escrita. já não sei sobre o que era, mas recordo-me que estava nervosa. não gosto de falar em público. não gosto especialmente de falar, mas gosto muito de escrever. do Vergílio só li aquele que era obrigatório na escola, "aparição". foi o meu preferido de entre aqueles que tínhamos de ler, "Memorial do Convento" e "Os Maias". de qualquer modo, sei como acaba o "Até ao fim". é assim: a vida inteira dentro de mim. dois livros com o mesmo fim!

segunda-feira, 5 de maio de 2014

sem eira nem beira




O ano começou, já lá vão uns meses, e tive tempo para ver alguns filmes. O último foi o Tiny Furniture da Lena Dunham - para quem não conhece, a tipa das Girls. É basicamente o mesmo. Final da universidade, o já não ser (assim tão) jovem, mas estar longe de tomar decisões adultas - esse limbo de quem termina os estudos e é lançado aos leões. A personagem de Lena volta a casa da mãe, reencontra amigas do secundário, faz um mais-ou-menos amigo e arranja um trabalheco sem ir à procura dele - do qual não precisa assim tanto e pode eventualmente desistir. Ela deseja coisas grandiosas, ser tão bem sucedida quanto a mãe, mas só a vemos fazer uns vídeos para o youtube. É aquela vontade ociosa de exposição que a tecnologia nos impõe e que acaba em vazio. Há demasiadas opções virtuais para poucas oportunidades reais. Claro que os problemas dela são coisas de classe média alta. Deixar um trabalho porque lhe apeteceu passar-se, tem o valor que tem, dentro do contexto dela. Há quem não tenha essa opção. O resto é o resto. Não quero realmente falar sobre este filme. Preferia falar sobre outro, como A Grande Beleza, mas há filmes que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre. 


Nestes 4 meses fui a muitos lugares, não estando realmente em nenhum sítio. Voltei a Lisboa, deixei-a levar-me nos seus eléctricos cheios, de gente que não a conhece, Lisboa que é nossa e para eles se aperalta - e volto à linha do meu comboio e vou com as mesmas caras pelas mesmas paragens, de olhos fechados, as estações mudam e, durante viagem, o que há de firme passa e o que sempre se move permanece.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Another year


Este ano passou por mim como um trovão. Não tive realmente tempo ou coragem para ver muitos filmes. Menos ainda para escrever sobre eles. Mais tarde arrependi-me. Perdi o embalo. As coisas que tinha a dizer ficaram por aqui soltas, misturadas com outras, e esta plataforma parece às vezes já não me servir. Isto, claro, são desculpas. Vejo tanta gente escrever tão bem todos os dias e pergunto-me como conseguem. Como conseguem, com todas as ideias que têm somadas às ideias que os atacam e que não são deles e ainda àquelas onde não conseguem chegar. É preciso dedicação. E é preciso aceitar a solidão da palavra. Este ano dediquei-me a passar a palavra de outros. A minha não me dava sustento, e assim se foi arrastando para longe. Quando os outros arranjaram uma boca mais nova e mais barata que passasse a palavra deles, calaram-me. E então fiquei muda. Sem a deles nem a minha. Um Homem não é ninguém sem a sua palavra. Eu tinha os meus filmes. E eis que fui rever os que me ensinaram a ver, a pensar e a escrever. Foi em boa hora que pude ver na tela O Gosto do Saké, Tokyo Story e Primavera Tardia de Ozu, ou que tive em casa um projector onde vi filmes do John Ford e do Jarmusch, ou ainda a feira de natal do cinema ideal onde comprei filmes do Mike Leigh por tuta e meia. Foi também, longe ia o verão, que vi Aquele querido mês de Agosto e As praias de Agnès. E se há pessoa que me inspirou foi ela, que, sem vergonha e com toda a honestidade, diz que quando tinha uns 26 anos e começou a fazer filmes, tinha visto, por alto, cerca de 8. 26 anos tenho eu e pensava ser muito tarde para (re)aprender as palavras, juntá-las e dar-lhes voz. Talvez seja, talvez não. Não é ainda a hora de descobrir. Com o ano a chegar ao fim, fica o registo dos filmes estreados em sala de que mais gostei. Com evidente destaque para Like Someone in Love de Abbas Kiarostami, e Io e Te de Bernardo Bertolucci. A seguir, e sem nenhuma ordem que valha a pena destacar: Frances Ha de Noah Baumbach, La vie d’Adèle de Abdellatif Kechiche, Noutro País de Sang-soo Hong, De rouille et d’os de Jacques Audiard, La Vénus à la fourrure de Roman Polanski e The Bling Ring de Sofia Coppola. Ainda não vi O grande mestre do Wong Kar-wai, mas deixo-vos um excerto do Happy together que espero servir de inspiração ao ano que se avizinha. A todos os que ainda me lêem, e também aos outros, sejam felizes, à vossa maneira, juntos ou separados, se não aqui, no fim do mundo.


domingo, 27 de outubro de 2013

Les amants du Pont-Neuf



Dias depois de ver Mauvais Sang, tive a feliz surpresa de ver Les amants du Pont-Neuf na festa do cinema francês, com a minha querida amiga e companheira Rita, que chorou e se assoou todo o tempo. Eu não chorei. Talvez por ela ter chorado pelas duas, talvez por eu ter chorado mais que a conta no Like someone in love.
Eu fiquei boa parte do tempo a achar que o filme ia acabar a qualquer momento. Porque podia ter terminado muito antes e seria igualmente extraordinário. Mas Carax leva-o à exaustão, num tour de force de performances espantoso, sem o qual podia cair no abismo. Depois do absoluto realismo das primeiras cenas num abrigo para quem não o tem, alterna entre uma mise-en-scène sabiamente controlada, com cenas bastante longas, e uma explosão de cores, sons e movimentos de câmara arrojados e delirantes, num hino ao amor desmedido e louco.
Alex encontra Michèle a dormir nos seus aposentos. Ela aparece-lhe como uma dádiva, da qual ele decide fazer o sentido da sua vida. Passam a depender um do outro: ele ajuda-a a caminhar por Paris, servindo-lhe de bengala, ela oferece-lhe companhia à noite, ajudando-o a passar as suas insónias. O amor é assim uma necessidade, algo a que se agarram para sobreviver. A relação é tão degradada como a ponte em que vivem, uma fortaleza em colapso físico e existencial. São egoístas, obsessivos e maquiavélicos. Alex faz tudo para que Michèle não consiga contactar a sua antiga paixão, põe o dinheiro que roubaram a jeito para que ela o derrube sobre o rio - com medo de a perder se saírem daquela ponte - e pega fogo aos cartazes espalhados pela cidade, preferindo que ela cegue a que se seja operada, porque só em condições extremas o seu amor é válido.
Ele é prisioneiro da ponte, ela é uma turista à procura de um escape. Quando finalmente o encontra, não tem problemas em drogar Alex e partir, deixando-lhe uma nota bastante desagradável sobre o leito do seu amor. 
O tempo passa e Michèle vai ao encontro de Alex. Percebemos que está com o médico que a operou, mas não consegue fugir ao fascínio que Alex e a vida que tiveram juntos despertam nela. O perigo, a ansiedade, o amor sem regras, cego e desmesurado. Quando se encontram no natal não há possibilidade de ficarem juntos porque a ponte (como eles) não é a mesma, não é já deles, é agora firme e aberta ao mundo. Ao perceber que não pode ficar com Michèle, Alex atira-os ao rio porque é preferível uma morte à morte do amor. São salvos por um barco (homenagem a L’Atalante e espécie de pré-Titanic), desta vez uma superfície em movimento que os transporta para longe daquele lugar sem nada para lhes oferecer. Decidem partir juntos numa nova aventura, renunciando à vida “normal” que tinham conseguido para si mesmos. Serão sempre os marginalizados lovers on the run que se deixam conduzir por paixões obsessivas, tão prazerosas como sofridas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Frances Ha



Estes dias tenho-me lembrado muito da Frances. Fui dispensada das minhas funções e também me disseram que sou muito boa mas isso não me paga a renda. A Frances é o rosto da minha geração. Licenciada e disposta a seguir os seus sonhos, passa os dias adiando decisões inevitáveis e procrastinando no sofá em frente à tv ou ao computador. Muda de casa como quem muda de peúgas, mas essas ela nunca tira, porque a melhor amiga que a lembrava disso, a deixou por uma rua melhor. Então ela ficou perdida porque precisava de alguém que cuidasse dela, porque é uma criança grande numa das maiores cidades do mundo, ainda assim pequena para a grandeza das coisas a que se propõe. Frances está longe de se acomodar. Não pára de um lado para o outro, e ao mesmo tempo passa dias inteiros cheia de projectos que acaba por não concretizar. Ainda assim, tem uma energia estonteante que contagia tudo à sua volta e que se manifesta nos movimentos sem jeito e nas palavras atrapalhadas.
Esta cena (carregar na cena) simboliza o conto de fadas em que vive. Não é assim tão improvável uma situação destas existir e é bonito pensar que existe, algures, ou que existiu, um dia. Mas é apenas uma cena no todo do amor e a longo prazo é uma quimera. Frances acredita que pode perdurar e nós acreditamos com ela. No final, troca esse olhar cúmplice com a sua pessoa, Sophie, a melhor amiga que a deixou por uma rua melhor, e depois pelo homem com quem se casou. Ela decidiu crescer enquanto Frances dava ainda luta à idade adulta. Foi a Paris com dinheiro que não era seu e deixou-se dormir o dia todo. Não conseguiu traçar um plano sozinha e ficou à espera de uma chamada que chegou tarde demais. Foi a casa dos pais no Natal, enganando um pouco mais a idade. E quando finalmente viu a sua carreira de bailarina caída na sarjeta, fez o melhor que podia com aquilo que tinha. Aceitou o trabalho de secretária na companhia e levou ao palco a sua coreografia. Abdicou do sonho e entregou-se à vida. Quem não tem cão caça com gato. E deu-se bem, melhor que muitos de nós. Vale a pena tentar, pelo menos. Só temos que deixar a bagunça do amor e da vida de parte. Frances dança estes tempos modernos com uma leveza inspiradora. Obrigada a ela e a ela, Greta, e ao Noah. Amanhã vou à procura de um novo trabalho.

sábado, 19 de outubro de 2013

Io e Te



Na passada semana fui, sem grandes expectativas, ver o Io e Te. Tinha ficado com uma ideia um bocado chata depois de ver o trailer. Estupidez minha. Bertolucci pega nos dois jovens - um enterrado a fundo no desconforto da puberdade, outra a arrancar os últimos bocados de uma extravagante e decadente adolescência que se prolonga pela casa dos 20 - e encerra-os numa cave bafienta, recheada de antiguidades, cenário idílico como exercício de estilo de uma requintada decadência. Decadentes são também as suas vidas, uma física, outra moralmente. À medida que o espaço vai ganhando forma, eles também se vão erguendo. Porque às vezes é preciso cair no fundo para nos levantarmos. O miúdo não quer ser incomodado durante uma semana e trata de tudo para ficar sozinho e tranquilo, mas a meia-irmã entra-lhe por ali adentro e, dado o seu estado, ele não tem outro remédio que não aprender a cuidar e a estar com alguém. Com ela, experiencia o que é sentir-se ligado a outro ser humano. Olivia vem dar vida e explorar o potencial da cave, ajudando Lorenzo a sair do buraco em que se enclausurou para se sentir livre e seguro. O desafio é fazer essa sensação perdurar fora de grades. Ela foi ensiná-lo a crescer, mas fá-lo de forma bastante passiva. É o miúdo que trata dela e a ajuda, ao deparar com uma realidade completamente desconhecida. E nessa tenra idade sentimo-nos importantes quando somos úteis e fazemos coisas pelos outros. Lorenzo fez tudo o que podia pela irmã e a sua devoção foi retribuída com o amor que precisava para acalmar o seu espírito tumultuoso. Há uma aura constante de sensualidade a pairar no ar. Olivia é uma deusa rebelde, e a sua beleza - dissecada à lupa pelo rapaz - serve como objecto de idolatração. Ela não é um modelo a seguir, mas alguém com uma experiência que ele não tem, que lhe mostra que a vida são dois dias e que as crises existenciais têm de acabar num deles. A escolha é dele. E dela. Quando, inocentemente, Lorenzo lhe dá os cigarros com a droga lá dentro, Olivia deixa de poder encerrar ali os seus problemas. Leva-os consigo e terá ou não coragem para resistir à tentação da maçã proibida. A cena em que Tea Falco dança a Ragazzo Solo, Ragazza Sola do Bowie é a mais bela do filme. A letra é a narrativa. É nesse momento que a aura de sensualidade cai e dá lugar a um abraço fraterno. 




Eu chorei quando o filme acabou. Fui em crescendo com ele, largando as amarras e deixando as emoções eclodir pela sala escura. Eu lembrei-me que já fui os dois irmãos e senti uma certa nostalgia de um tempo cheio de agitações e incertezas, de amores e desencontros. Passados mais de 15 anos desde Stealing Beauty, Bertolucci não perdeu o tacto, mas eu perdi a idade da inocência e a bagagem é uma coisa pesada.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ainda Kiarostami. assim é o amor.




Decorrida uma semana, Like someone in love continua tão presente que não consigo ver outro filme. Também não consigo sair à rua e lidar com o sol a arder sem glória, amolecido pelo temporal que se colou à pele e a fez suar as vísceras. O sol veio dizer adeus e não gosto de despedidas.
Por falar nisso, esta semana vi o episódio final de Breaking Bad, que seria óptimo, se tivesse terminado mais cedo. Já para não mencionar o de Dexter, que foi assim a banhada total. Daí continuar a aplaudir Kiarostami, que não se lembrando de mais nada, parou o filme ali e pronto. Gosto de finais que deixem as coisas a arder, que não resolvam nada, que deixem a história/o mundo em aberto.
Também esta semana, uma amiga dizia-me que um filme vale somente pela história e que lhe cansam os críticos que “perdem tempo” a falar da mise-en-scène, dos planos e “do resto”. Pois eu podia ficar horas a falar de planos. É tão belo o filme contar histórias através deles, deixar-se guiar sem um fim. Foram os planos que me fizeram ficar embasbacada com Breaking Bad, porque aquilo é coisa de cinema e é preciso um gajo arriscar a sério para fazer uma série assim.
Kiarostami não interfere com a vida que lhe entra pela câmara. Não conta a história, deixa a história contar-se. Uma história universal que é dele e de cada um de nós. Já todos fomos Akiko, à procura de algo e a tentar esconder o algo que somos de outro. Ou o namorado ciumento e obsessivo que sabe estar a ser enganado. Ou mesmo a vizinha com quem noutra altura nos podíamos ter cruzado e agora é tarde. Só não fomos a avó, por falta de filhos com que nos preocupar, ou Takashi, por força da tenra idade e de dias por viver.
Na cena no carro entre Takashi e o namorado,  o mais velho parece conter em si todo o conhecimento. Mas nunca diz nada específico, apenas solta linhas condutoras. When you know you will be lied to, it’s better not to ask. Não foi por falta de aviso que o namorado se deixou ser aldrabado. Continuou ali, preso num cubículo com um estranho, a tentar ser bem educado, a explicar as razões pelas quais quer casar com Akiko, todas ao lado, e não sabemos se está apaixonado ou obcecado por ganhar a batalha do amor. Ele não quer deixar que ela Seja, quer moldá-la a seu gosto. Mas não quererá Takashi o mesmo?
Kiarostami não quer moldar nada. Deixa que uma transeunte, que passa duas vezes com crianças vestidas de bruxas, fique confusa com o carro que sai do estacionamento e se ponha a olhar em todas as direcções. Dá tempo a Takashi para descer as escadas do prédio, deixa-o adormecer durante o sinal vermelho e que o trânsito interfira quando vai buscar Akiko, tendo de fazer inúmeras manobras até conseguir chegar a ela.
Todos eles (e todos nós) trocam impressões e expressões de amor, como quem está apaixonado. assim é o amor, uma estupidez intermitente mas universal, já dizia o valter.