terça-feira, 29 de novembro de 2011

O NEO-REALISMO E A CIDADE


Este post vem atrasado. Já aqui falei de vários filmes desta época, sem ainda ter dedicado especial atenção ao movimento em si. Mas mais vale tarde que nunca, por isso aqui fica o apontamento a uma das épocas áureas do cinema.

Ainda as consciências do Mundo não tinham recuperado do choque da bomba atómica, já o cinema começava a sua fuga, na tentativa de trilhar um futuro melhor.
O cinema embrenhou-se na realidade, depois da época triunfal dos estúdios americanos. Um “cinema do encontro” (Cesare Zavattini), da “revelação” e de combate, que privilegiou a representação, e ao qual a modernidade vai buscar influências. Todas as Novas Vagas que surgiram no início da década de 60 derivam desta proposta italiana que deu asas à arte de fazer cinema, depois da barbárie da Segunda Guerra Mundial.
Os efeitos traumáticos da Guerra (os totalitarismos, os campos de concentração e a bomba atómica) deram à 7ª arte uma consciência documental e social, que mostrou um mundo incompreensível. Garantida a linguagem narrativa, a cinematografia parte para outras estéticas e funções.
Foi primeiro em Itália que um grupo de realizadores se destacou, pondo em causa uma estética nacionalista e conformista saída dos melhores dos mundos, onde todas as personagens vivem bem e sem problemas.
O neo-realismo italiano surge na primeira metade dos anos 40, opondo-se à estética dos “telefones brancos”, nome que apelidava os melodramas sobre a classe média que promoviam uma boa imagem de Itália, controlada por Mussollini, e onde existiam sempre telefones brancos dentro das casas.

Em 1943 os telefones desaparecem e Luchino Visconti vem destruir a harmonia desse mundo artificial, veiculado pelo cinema do regime, com a sua obra Ossessione. Conta a história de um operário que se apaixona por uma mulher casada e que concorda com o seu plano de matar o marido. A sua exibição foi proibida por violar princípios que o regime tinha abolido - a representação do crime e da imoralidade –, facto que lançou as sementes para a construção de algo novo, que viria a materializar-se em 1945, com a chegada das tropas aliadas e a queda do fascismo. A partir daí o cinema podia contar a verdade sobre as condições de vida do povo e os efeitos da guerra.
O neo-realismo privilegiou temas da realidade social da época, como a pobreza e o desemprego no pós-guerra, em detrimento das adaptações literárias. Usou uma linguagem natural que garantisse um maior realismo e aproximou-se da estética documental através da luz natural e da câmara à mão. A ficção ficou reduzida ao mínimo graças à fidelidade à natureza: tudo tinha de ser o mais natural possível, a representação, os cenários e os acontecimentos.
Rossellini destacou-se no neo-realismo por possuir uma concepção da realidade inspirada na improvisação, na recusa do argumento detalhado com indicação de diálogos e cenários, na estrutura narrativa elíptica, na imprevisível motivação das personagens, e no uso de planos gerais e de conjunto em detrimento de grandes planos. É o espectador quem vê, através da realidade contínua no ecrã, o drama da cena.
O neo-realismo é a negação da vedeta. Utiliza indiferentemente actores profissionais e ocasionais. Ingrid Bergman contracenava com actores ocasionais, recrutados nos próprios lugares da acção, nos filmes de Rossellini. O que importa é não pôr o profissional no lugar habitual, pois a relação que estabelece com o seu personagem não deve incutir no público uma ideia a priori, o que o deixava confuso, uma vez habituado a vê-lo no papel de vedeta de Hollywood.
O grande feito do neo-realismo foi levar a vida da gente vulgar para o ecrã, mostrando o seu dia-a-dia sem dramatismo.

A CIDADE
O neo-realismo tem um forte cariz político e social vinculado na cidade, centro gravitacional de uma Itália perdida que deseja reencontrar a sua essência. É esta Itália devastada pela guerra que aqui encontramos, cujas cidades em ruínas são o melhor retrato. Uma geração de realizadores sem meios financeiros monta estúdio nas ruas, motivada por uma necessidade de denúncia, conciliação e procura de um humanismo perdido.
O neo-realismo vive na cidade. André Bazin e Siegfried Kracauer, dois dos mais importantes críticos do movimento, interessaram-se por essa componente cinemática da cidade. Bazin descreve a cidade italiana como “prodigiosamente fotogénica”: “Desde a sua antiguidade, o planeamento das cidades italianas permaneceu teatral e decorativo (...) A isto se acrescenta a luz do sol e a ausência de nuvens (inimigo principal das filmagens em exteriores) e assim se explica o porquê da superioridade dos exteriores urbanos dos filmes italianos.”
Kracauer considera que os “filmes cinemáticos” são abençoados por um conjunto insubstituível de qualidades técnicas e formais da sétima arte que potenciam uma análise articulada do “fluir” da vida, mais notório nas ruas onde os espaços materiais se conjugam com as interacções sociais. É nas ruas que o cinema vai aprender a relacionar-se com o humano, nos seus ambientes físicos e sociais, de uma forma mais intensa, devido ao momento histórico de crise. Segundo o autor: “Quando a história é feita nas ruas, estas tendem a saltar para dentro do ecrã.”
Ao nível do movimento cinematográfico existiram duas fases distintas no neo-realismo. A primeira, de 1943 a 1950, fez dos desafios dos protagonistas os desafios reais de uma sociedade. Roma, Cittá Aperta invoca a solidariedade do povo italiano na resistência à ocupação alemã. Em Ladri Di Biciclette, Antonio é um desempregado entre tantos outros. Os protagonistas destes filmes partilham as experiências diárias de um povo destruído pela guerra. A partir de 1950 o protagonista alheia-se do mundo urbano. Em I Vitelloni, a vida citadina italiana regressa à rotina e aos tempos de paz e os protagonistas, fazendo parte de uma sociedade, já não têm uma experiência tão colectiva. Passam antes por crises existenciais que respeitam a cada um, numa representação mais reflexiva. Nesta fase, a luta com o cinema mais comercial intensifica-se.
Percebe-se deste modo que o neo-realismo tem uma profunda relação com a cidade, moldando-se por ela e acompanhando o seu desenvolvimento. Ela é o espaço para a união dos personagens perdidos do pós-guerra.
Nos grandes meios urbanos existia uma multidão anónima que vagueava pelas ruas, alheia aos problemas dos outros. Apesar de todas as pessoas estarem afectadas, apenas se preocupavam consigo e com os seus. No neo-realismo, a solidão construía-se na imensidão, e é esta uma das suas características mais importantes. É imposto o individualismo a cada um, num momento em que os homens nunca tinham estado tão próximos uns dos outros. As pessoas caminham sem olhar para o lado, sem se distraírem com o sofrimento alheio.
No cinema neo-realista não se constrói, observa-se, e é aí que reside a sua essência.

3 comentários:

  1. Sempre bom ler acerca de coisas de que se gosta muito. Muito bom texto.

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  2. O cinema seria muito mais pobre sem as cidades italianas...

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